quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A moça dos cupons

Levei mais de um mês para começar a escrever esse post, isso porque tenho certa dificuldade de escrever sobre a morte. Depois de certo tempo, vê-se o fato de maneira mais clara e menos emotiva, o que facilita sua transcrição para o reino das palavras. No dia 21 do mês passado foi quando esse fato sucedeu.
Eu tinha acabado de sair do treino na academia, ainda estava meio agitado por causa da adrenalina que corria nas veias. O relógio marcava 9 da noite, mas eu senti que ainda tinha pique para ir ao Guanabara do calçadão de Bangu comprar os víveres que faltavam na geladeira. O tempo estava agradável, tendendo para o frio, mas não chegava a incomodar. Montei na bicicleta e tive de virar apenas duas esquinas para chegar ao supermercado.
Compras feitas, débito no cartão de crédito e um monte de sacolas com itens diversos, pão integral, queijo minas, embutidos de carnes leves como frango e peru, todas essas coisas que a maioria considera frescura. R$ 69,65. O Guanabara oferece cupons para concorrer a um carro, um cupom para cada R$ 20,00. Eu não tenho o hábito de pegar esses cupons porque tenho uma enorme preguiça de preenchê-los um por um, mas como estava excepcionalmente disposto resolvi buscas os 3 a que tinha direito. Fui até o guichê na frente da loja e, com um boa noite mecânico, entreguei a nota fiscal à mocinha atrás do balcão. Ela conferiu o valor e apertou 3 vezes o botão da maquininha, que a cada toque imprimia um cupom.
– O seu nome é Marcel, não é?
– Isso. – pela primeira vez fitei a moça pouco interessante nos olhos. – aluna do Mochón ou do Marechal Alcides?
– Não, eu sou a *****, irmã do *****, lembra?
Por um brevíssimo momento fiquei estático. Fazia mais de 15 anos, mas eu lembrava bem do nome, só não podia acreditar que estava diante da pessoa. Uma das meninas mais desejadas da época da minha adolescência, daquelas com quadril largo e partes superiores das coxas grandes e globulosas... enfim, com bunda grande e bem formada. O que eu tinha diante de mim? Uma figura disforme, gorda, vestindo aquele uniforme barato do Guanabara, os botões da camisa branca quase arrebentando com a pressão da gordura, as partes da blusa afastadas entre os botões revelavam que a peça estava um número menor. Apertei a mão maltratada e abri um sorriso franco, condescendente.
– Caramba! Quanto tempo! Como está seu irmão?
– Está bem, se separou, está morando comigo. Estamos no mesmo lugar, sabe? – ela olhou para minha aliança – ah, você se casou, né?
O ar de decepção era evidente. Em sua mão não vi aliança alguma, mas eu sabia que ela tivera um filho porque alguém me contara há tempos atrás. Por um segundo tive o ímpeto de me vangloriar do meu casamento, para me vingar da época em que ela não quis sair comigo, mas a figura triste em minha frente não despertava maldade alguma, tentei ser o mais agradável possível.
– Casei sim, já faz alguns anos. Mas você está bem! Que bom encontrar você por aqui. Eu tenho que ir, manda um abração para o safado do seu irmão!
– Mando sim, apareça por aqui! Beijos, tchau!
Afastei-me estarrecido. Aquela menina que tantas vezes me esnobou, que eu nunca beijara, agora estava confinada às próprias banhas, enfiada num balcão apertado de troca de cupons no Guanabara do calçadão de Bangu. O irmão, que tantas baladas passou comigo, que fazia parte do nosso grupo de dança (sim, eu já estive em um) voltara depois de velho para a casa da irmã, abatido pela sina do determinismo.
O leitor deve estar aflito procurando pelo defunto citado no primeiro parágrafo. Talvez isso decepcione quem estava esperando por um corpo propriamente dito, porque o cadáver a que me refiro é cem por cento metafórico, e nem por isso causa menos dor e tristeza. É a morte de minha geração, de minha juventude e dos meus sonhos imaturos de rapazola de 15 anos.
Como negar? Todos, em sua adolescência, acreditavam sinceramente, com candura inimitável, na eternidade das coisas belas. A beleza, o vigor, a inconseqüência romântica, o amor febril, a agilidade física, os sonhos... só é possível acreditar em sonhos tão esplêndidos, que eles sejam possíveis, quando se tem menos de 20.
Há tempos sei que minha mocidade passou, as cobranças da escola, o gás que acaba, a infiltração no teto, a conta de telefone, tudo está aí para me lembrar disso. Entretanto, sempre enxerguei meu passado como algo dinâmico, que de alguma forma estivesse vivo em um canto da lembrança. Por várias vezes me peguei pensando nas festas de rua que varavam a madrugada, na amizade fidelíssima dos companheiros de dança e de copo, no sexo no sexo no sexo (e no sexo). E, é claro, nas meninas de corpo recém-formado, lindas, inalcançáveis, objetivo absoluto e justo de cada respiração minha. Conquistei pouquíssimas, tive o azar de morar numa vizinhança em que todos os meus amigos eram mais velhos, robustos e carismáticos do que eu. Mas o que importa? Eram como ninfas que enfeitavam minhas visões do passado, afresco que emoldurava um imenso mural de doces lembranças.
Ali, naquele lugar estéril e insosso estava a ninfa, hoje uma espécie de medusa cujos cachos de serpente eram atados por uma presilha plástica barata. Aquela mulher, que quando moça era a própria irradiação do desejo e da vitalidade juvenil, agora encarnava a derrota, a estagnação, a ruína. Fez-me lembrar de que quase todos os meus amigos envelheceram e não deram em nada, de que as músicas, os filmes, a cultura dos anos 80 e 90, tudo estava enterrado e não deixava saudade alguma. Fez-me lembrar de que hoje as ninfas são mães solteiras, o corpo deformado pelas gravidezes, com empregos que só exigem o segundo grau completo, quando muito. Aquela mulher comum em seu emprego miserável, vestida naquele uniforme roto, era uma sombra negra e triste que caia sobre a sepultura de minha mocidade.

sábado, 26 de setembro de 2009

Pausa

São 3:55h da manhã e estou escrevendo um post. Mas não esse post, um outro, que está me dando um trabalho danado. Então talvez você se pergunte, por que diabos parou de escrever um post para escrever outro? A resposta é que estou cansado demais para pensar no outro assunto.
Eu tenho mantido a regularidade de postagens aqui no Três por Cento em cerca de 4 a 5 por mês. Isso é menos do que eu tinha planejado inicialmente, mas eu acabei percebendo, com a prática, que os bons posts demoram muito para serem escritos, porque precisam de inspiração e imprescindível entusiasmo. Há muito tempo estou conformado com o fato de que tenho poucos leitores, isso não me aborrece, sinceramente, porque eu sou meu principal leitor (acreditem, eu me leio o temo todo), mas não quero que meu blog se torne uma massa de bobagens mal escritas apenas para dizer que eu posto muitas vezes por semana, por isso eu não me perdoaria. Ser taxado de medíocre, quando sei que não o sou, é um risco que não vou correr.
Isso tudo para dizer que o meu próximo post será bem bacana, porque trata da época mais difícil e maravilhosa da vida de qualquer pessoa. Estava escrevendo com carinho, fiquei cansado, por isso parei.
Sou professor, meu papel é ensinar, então aqui vai uma lição que aprendi escrevendo no Três por Cento: não faça nada do que ama quando não tiver o ânimo. O resultado não terá vida, você será julgado pela obra mediana que apresentou. Concluir uma tarefa sem entusiasmo, apenas por fazer, para constar em quantidade, é aceitar ser banal, ordinário. Eu digo que saber a hora de parar é um gesto de coragem.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

GLP de volta, zumbis africanos na área e bola pra frente!

Fiquei meio desanimado de escrever no blog nesses últimos dias, porque já tinha escrito demais sobre os problemas da escola e dos professores, e sei o quanto isso soa repetitivo para quem não é do meio. A questão é que foram tantas coisas desagradáveis, uma atrás da outra, que ficou difícil pensar em outros temas. Entretanto, como hoje é segunda-feira – dia oficial para iniciar dietas, parar de fumar e começar a praticar exercícios físicos – vou abrir a semana com um ar mais otimista, antes que esse se torne o blog oficial do professor deprimido.
A boa notícia é que o Estado finalmente liberou a verba para a reimplantação da minha GLP, cancelada há quase dois meses por conta da gripe suína, o que significa que a partir de amanhã estou de volta as minhas aventuras na turma 2005. Tenho ainda esta semana e a outra para fazer um resumo do resumo da matéria para que as criaturas tenham conteúdo para as provas.
A semana que passou foi de retomada das atividades depois do período de greve, com muita ralação principalmente no Marechal Alcides. A maioria dos alunos apoiou o movimento de greve, apenas alguns gatos pingados que não têm consciência da própria existência, imersos num profundo e letárgico estado de alienação, teceram alguns comentários desagradáveis que não vou reproduzir aqui. Mas agora a greve são águas passadas, procurarei não comentar mais esse assunto que, cá entre nós, já deu.
Nesse ínterim, baixei e instalei o Resident Evil 5, continuação da franquia de sucesso da CAPCOM. O game não é essa Brastemp toda, de todos os jogos da série este é o que mete menos medo – a maior parte do jogo se passa em ambientes bem iluminados e na luz do dia, bem diferente das mansões soturnas de RE1, RE2 e RE Code Veronica. De qualquer forma, explodir os miolos dos zumbis é algo que sempre traz paz de espírito e uma satisfação imensa. Levantou-se uma polêmica interessante sobre esse jogo: como a história é ambientada na África, quase todos os zumbis são negros, o que significa passar horas a fio atirando em afrodescendentes, homens e mulheres. Curioso como as 4 edições anteriores, em que todos os zumbis eram brancos, não levantaram nenhum comentário sobre o extermínio da nação caucasiana.
Enfim, esta semana está começando com um novo ar. Não sou do tipo de pessoa que reclama a vida inteira, pelo contrário, quem me conhece pessoalmente sabe que pouco me queixo. Concentrarei minha energia em preparar conteúdos que reponham o tempo perdido dos alunos e, não menos importante, em apurar a mira para esfacelar os pobres zumbis, seja lá qual for sua raça.


Bu the way, não abandonei o Oblivion, O caso é que se eu for esperar terminá-lo para começar outro jogo, vou ter de aguardar até 2010, porque Oblivion é longo pra raio (ouvi na internet relatos de que o tempo médio de jogo é de 200h). Os capetas dos Hell Gates que me aguardem, agora é a vez dos zumbis bronzeados! :P

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Resumo da ópera

Os amigos e leitores do Três por Cento vêm acompanhando junto comigo a luta dos professores do Estado contra as propostas indecentes do governador para nosso reajuste salarial e plano de carreira. Pois bem, o martelo foi batido, não há muito mais a fazer, eis então o resumo da ópera – neste caso, está mais para tragédia de Shakespeare.
Depois do absurdo ataque da Polícia Militar aos professores, acreditei que a repercussão do caso ajudaria a mobilizar a população a favor da nossa causa, posto que o ato foi repudiado por todos. Ao que parece, o governador achou a mesma coisa, porque sancionou rapidamente o PL 2474 na sexta-feira passada, véspera de final de semana, para gerar o mínimo de polêmica e discussão. Outra covardia, nova apunhala pelas costas.
Com a lei sancionada, há pouco o que fazer. Somente uma mobilização maciça dos professores fluminenses poderia pressionar o governo, mas isso não acontecerá por três motivos:
1. Grande parte dos professores concursados ainda está em estágio probatório, o que dá aos profissionais a falsa idéia de que não podem entrar em estado de greve. Servidor em estágio probatório pode fazer greve sem nenhum risco de exoneração, porque tem os mesmos direitos do servidor efetivado. Como sempre, a falta de informação é uma das maiores armas do governo contra a classe.
2. Muitos professores fazem GLP, o que os impede de fazer greve. Para quem não sabe, o governo maldosamente cancela as horas extras dos professores grevistas, o que é absurdo, já que uma coisa nada tem a ver com a outra. Como o professor precisa do dinheiro da GLP para sobreviver, já que é impossível manter-se com nosso ridículo salário, o governo tem mais uma arma para impedir o servidor de exercer o direito constitucional da greve.
3. Os diretores de escolas, que há anos não são eleitos por processo democrático, mas por indicação política, em sua maioria não apóiam ou mesmo coagem os grevistas, ameaçando-os com o temido código 61. Esse código, que nada mais é do que o reconhecimento de que o professor fez greve em tal dia, não traz nenhum prejuízo além das implicações naturais do estado de greve: desconto do dia parado ou reposição daquele dia de aula.
Esta é a tabela final da incorporação do Nova Escola, até 2015 (alguém ainda consegue falar em incorporação até 2015 sem dar uma risada?):

CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIAR

Neste momento não tenho esperança de que haverá qualquer avanço nas negociações com o governo. Eles nos têm no cabresto das GLPs, e isso não mudará em curto prazo. Resta, então, duas saídas: mandar o Sérgio Cabral e toda a Alerj tomarem naquele fétido lugar onde o sol não bate e começar do zero, fazer uma nova faculdade e abandonar de vez o magistério, essa carreira tão bonita e tão desprezada nos dias de hoje. Ou... insistir. Acreditar que cada professor que se mantém no magistério a despeito de toda essa adversidade é, na verdade, um herói, alguém que sabe da sua importância, da sua indispensabilidade para um mundo melhor e mais justo.
Eu fico com a segunda opção, mão sei por quanto tempo, por quantas humilhações mais, mas fico, enquanto durar o amor. Porque só o amor explica a arte de ser professor e ainda ser capaz de lançar ao aluno um sorriso de esperança.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Professor, mãos ao alto!

No post anterior avisei que só divulgaria o resultado da manifestação que os professores fariam hoje em frente à Alerj caso tivesse estômago. Digo que estou enjoado, enojado, mas mesmo assim escreverei a respeito.
Dizer que nossas reivindicações não foram atendidas é redundante, como já havia dito, o governo nunca vota a favor do servidor. Inesperada foi a reação das autoridades à presença dos profissionais da educação: a PM enviou uma tropa de choque para conter a manifestação pacífica. Atacaram os professores com balas de borracha, bombas de efeito moral e gás de pimenta.
Qualquer comentário que eu faça a respeito soará previsível e retórico. Deixarei aqui as imagens feitas pelo RJTV para que o leitor forme sua própria opinião. De minha parte, apenas duas palavras: esmorecer, jamais.


Para ler a matéria completa do G1 sobre o confronto entre PMs e professores em frente à Alerj, clique aqui.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Chega! Em greve!

Resisti um pouco à idéia de iniciar o mês de setembro com um post mal-humorado e melancólico, já que foi assim que fechei o mês de agosto. Passei esses últimos dias tentando bolar uma crônica ou fazer a resenha de um filme. No entanto, tenho o compromisso pessoal de registrar neste blog, como prioridade, o sentimento exato de cada época em que um post é escrito. Sendo assim, segue mais um post mal-humorado e melancólico.
O motivo é o mesmo do post anterior: a sacanagem que está sendo feita com os professores da rede pública estadual do Rio de Janeiro. Acho que somente nesta semana minha ficha caiu e entendi que, de acordo com os planos do governo, Danielle e eu ficaremos sem receber aumento por três anos. Explico:
O salário-base de um professor estadual é uma merreca de R$607,26. A essa mixaria somam-se de R$96,00 a R$435,00 do abono Nova-Escola, pago aos professores mais antigos que ingressaram no Estado até 2005. O valor desse abono era definido de acordo com o desempenho da escola, gerando a esdrúxula situação de um professor ganhar mais (ou menos) do que o outro. A performance da escola era medida através de critérios obscuros que, à época, levantaram suspeitas de fraude e favorecimento de determinadas unidades escolares.
Pois bem, Danielle e eu recebemos o suntuoso valor de R$213,25. O que o Estado pretende fazer é incorporar o valor máximo do Nova-Escola (R$ 435,00) ao salário-base dos professores, acarretando em um aumento real. Seria muito bom se não fosse por um detalhe: essa incorporação será feita no decorrer de SEIS ANOS, em doses homeopáticas. Isso significa que quem já recebe o valor máximo vai ter de esperar pelo menos seis anos para ver o salário líquido aumentar de verdade. Em nosso caso, somente a partir de 2012 veremos um reajuste real, quando nosso salário vai ficar efetivamente maior, de R$ 820,21 (base de R$607,26 mais R$213,25 do Nova-Escola) para R$846,77. Em suma: teremos de esperar apenas três anos para ter um substancioso aumento de R$26,56.
Por essas e outras – não devemos nos esquecer da anulação das GLPs e dos alunos que ainda estão sem aula –, hoje estou em greve. Não é hábito meu aderir às paralisações, pois sempre penso na situação dos alunos; hoje, porém, é A MINHA SITUAÇÃO que está insustentável, de modo que a partir de agora irei aderir a todas as paralisações, como forma de deixar clara minha insatisfação com essa vergonha que está a Educação aqui no Rio.
Segundo o site do SEPE-RJ, hoje será votado na Alerj o Projeto de Lei 2474, que é essencialmente a confirmação dos absurdos supracitados. Se eu tiver estômago postarei ainda hoje o resultado da votação aqui no blog. Cruzemos os dedos para que esse disparate não seja aprovado, ainda que essa seja uma esperança tênue, visto que nada neste Estado é votado a favor dos servidores.



CLIQUE PARA CONFERIR A VERGONHA

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Fechando Agosto. Sem GLP.



O leitor assíduo do meu blog já deve estar cansado de testemunhar meus rotineiros ataques de fúria causados pelo tratamento dado aos professores por nosso simpático governador que, naturalmente, tinha de aprontar mais uma para fechar com chave de ouro o nefasto mês do desgosto.
Esse já não tinha sido um bom mês, como já havia dito em post anterior, Dani pegou um misto de pneumonia com faringite que a derrubou desde meados de julho até agora. Como ficamos presos em casa, minha única diversão foi mesmo debulhar Oblivion enquanto Dani colocava sua leitura em dia; nada contra o excelente jogo, o problema é ter de jogar compulsoriamente. Já melhor, Dani volta comigo à academia amanhã, o que até poderia ser encarado como uma boa notícia ao fim deste mês se não fosse por um detalhe: amanhã já será setembro, logo, agosto está mesmo perdido.
Enfim, como se já não tivesse bastado esse episódio, o Sr. Sérgio Cabral e sua Secretária de Educação Tereza Porto aprontaram-nos esta: cancelaram as GLPs dos professores, sem aviso algum, para que não recebêssemos pelos 15 dias de recesso por causa da Gripe A (quem diria! Gripe Suína também ataca o contracheque dos professores). Até aí tudo bem (?), todos sabemos como o Estado é unha-de-fome. A questão é que já estamos praticamente em setembro e as GLPs não foram reimplantadas, ou seja, os professores perderam suas horas extras e seus alunos continuam sem aula.
Acredito que o Estado esteja protelando a solução desse problema com o objetivo de se capitalizar para pagar a incorporação dos R$ 100,00 aos salários dos novos professores, que não ganhavam esse polpudo benefício. Os maiores prejudicados serão os alunos que dependiam dos docentes com GLP, que por sua vez são novamente apunhalados pelas costas, deixando de receber repentinamente algo que é mais do que uma simples hora extra: é uma complementação ao salário-base miserável que nós recebemos: R$ 540,00.
Encerro por aqui, não transformarei este post num alfarrábio sobre o tratamento canino dispensado aos servidores fluminenses, apenas deixo à mostra essa nova chaga de quem mais uma vez é ferido em sua dignidade.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Diário de jogos

Desde que iniciei o blog ainda não havia escrito qualquer post sobre outro dos meus (muitos) vícios: os jogos de computador. Falta grave, que começarei a corrigir neste curto post.
Lembro-me de que, pouca antes de começar a escrever no Três por Cento, havia fechado dois grandes títulos: Dead Space e BioShock, o primeiro um excelente horror-survival no espaço, o segundo um shotter originalíssimo passado numa utópica cidade submarina na década de 50. Ótimos games, ambos com continuação prevista ainda para este ano.
Mês passado peguei para jogar o Assassin’s Creed, um dos jogos mais bonitos que eu já vira até então. Uma pena que a beleza é proporcional à chatice: o jogo obriga você a repetir a mesma sequência longa de ações NOVE vezes. Dessa maneira, não há gráficos bonitos que compensem o tédio.
Neste momento estou jogando, com três anos de atraso, The Elder Scrolls IV: Oblivion, aclamado como um dos melhores jogos de RPG já feitos. Já estou com mais de dez horas de jogo, admito que o negócio é bom mesmo, tudo é muito variado e há dezenas de coisas para fazer, desde negociar o preço de uma espada, passando por recuperar um quadro roubado, até achar o irmão gêmeo perdido de um pobre bêbado de taverna. E muitas, mas muitas dungeons mesmo! O único revés desse jogo talvez seja justamente sua longevidade: já li na Internet informações de que há mais de 100 horas de gameplay só para fechar a quest principal, e mesmo depois disso o game pode continuar a ser jogado indefinidamente, cumprindo as infinitas missões disponíveis. Essa característica, que acredito agradar à maioria dos jogadores, não faz exatamente meu estilo: prefiro jogos com enredo bem definido, com início, meio e fim. Talvez isso se deva a minha paixão pelos filmes, que faz com que eu prefira jogos com história mais linear.
Vou finalizar o post sem fazer reviews dos jogos, simplesmente porque seria chover no molhado: já há dezenas de boas resenhas sobre todos os jogos citados aqui. O que fica registrado então é meu primeiro diário de jogos do Três por Cento e, em breve, informações sobre meu progresso nas terras de Cyrodiil.


sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Pneumonia, links bloqueados e dedos-duros


Semaninha agitada essa de volta às aulas. Ao menos, graças à gripe suína, tivemos mais duas semanas de descanso que, na verdade, não foram tanto de descanso assim. O fato é que esse recesso do meio do ano foi uma verdadeira prostração para mim e para Dani.
Passei boa parte desses dias hospedando filmes em DVDR no fórum do CPTurbo e disponibilizando os links neste e em outro blog. Resultado: o Rapidshare bloqueou os links inutilizando todo o meu trabalho. Para dizer a verdade, neste exato momento (são 02:28h do dia 21, até hoje não sei porque o Blogspot não acerta o fuso horário) estou refazendo o upload de mais de 50Gb, processo que vai levar mais de dez dias. Enfim, posso afirmar com segurança que boa parte do meu recesso foi gasto inutilmente, o que me traz grande felicidade e vontade de arrancar os olhos de alguém.
Lamentavelmente Dani não teve sorte melhor, contraiu uma belíssima pneumonia bem no meio do recesso, moléstia essa que até agora não foi curada e ganhou como companheira uma inconveniente faringite, que a deixou de licença médica por dez dias. Ela, que não suporta ficar parada, está colocando sua leitura em dia, resumindo suas revistas e relendo O Alienista de Machado de Assis.
Apesar desses revezes, não posso dizer que as férias foram perda total. Foi maravilhoso passar um mês inteiro indo dormir às oito horas da manhã e acordando às quatro da tarde, revendo inúmeros filmes clássicos e jogando Assassin’s Creed até fazer bolhas nos dedos. Fazer uns churrascos com os amigos e a família também foi bem bacana, mas o melhor de tudo mesmo foi ter desligado a tecla professor por trinta dias.
Eu estou voltando ao trabalho sozinho, Dani ainda ficará de licença até semana que vem. Na escola tudo está como sempre, exceto por um professor filho da puta do Marechal Alcides que está fiscalizando os colegas e dedurando as faltas e atrasos, inclusive de quem mora muito longe e não tem como chegar no horário. Preciso falar com sinceridade, isto é algo que ainda não entendo: como alguém pode ter prazer em prejudicar o próximo gratuitamente, sem levar vantagem alguma além do gosto de ver o transtorno alheio? Não é uma pergunta retórica, isso realmente eu não compreendo.
O professor está de volta, a todo vapor, mas aquele lado nerd latente estará, mesmo neste último semestre de trabalho, sempre chamando ao blog, aos jogos e aos filmes, ainda que seja nessas horas avançadas – 2:51h, até que esse post saiu bem rápido! :D

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Clássicos que fascinam

Nesta última semana de férias prolongadas (para quem não sabe, graças à gripe suína, ganhamos mais 14 dias em casa), resolvi assistir a alguns dos tais filmes obrigatórios que todo bom cinéfilo deve conhecer. Assistir a esses filmes tem, na verdade, um caráter didático que não necessariamente resultará em diversão.
Na segunda-feira escolhi O Sétimo Selo e anteontem, terá-feira, assisti a Cidadão Kane, o tal filme que alardeiam ser o melhor já feito. A crítica completa de ambos estará disponível em breve. Vou escrever apenas algumas palavras sobre minha opinião geral.
Fico impressionado como esses filmes antigos causam em mim uma satisfação que raramente aparece quando assisto às novas produções. São filmes que têm mais de 50 anos, mas que trazem consigo a marca da genialidade e da sensibilidade. Metafóricos, complexos, são filmes que não subestimam a inteligência do espectador, pelo contrário, obriga-os a pensar e refletir durante a após a exibição. Acima de tudo, são filmes humanos. Não sei se estou certo ao dizer isso, mas tenho uma impressão muito forte de que os cineastas das décadas de 1940 a 1970 tinham uma capacidade superior de apresentar e discutir os conflitos do homem. O Sétimo Selo, em particular, arrebatou-me de tal maneira que assisti ao filme duas vezes na sequência, algo que só havia acontecido comigo quando assisti a Donnie Darko.
Lamento pelos que têm preconceito dos filmes antigos. Estão perdendo a oportunidade de sentir verdadeiramente o que é ser tocado pela arte do cinema.
À propósito, só não publiquei este post mais cedo porque fiz questão de apresentar O Sétimo Selo à Dani e, no meu caso, assistir a ele pela terceira vez, em sequência. Pode parecer exagero, mas ver esses filmes apenas uma vez é uma ofensa ao gênio que os criou e uma perda para quem deixa de apreciar cada detalhe sutil da obra.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

O vendedor de revistas

Na primeira quarta-feira das férias (22/07) eu estava num 392 indo ao centro da cidade para renovar meu estoque de mídias virgens e comprar uma bisnaga de pasta térmica para o processador do meu micro, que estava atingindo temperaturas absurdas e resetando a máquina periodicamente.
Tarde amena e agradável de inverno. Estava sentado no lado esquerdo, no canto da janela, nos ouvidos, os fones do celular no volume máximo, na vã tentativa de abafar o incômodo barulho do motor, que fazia trepidar as placas mal fixadas do assoalho metálico.
Na altura de Bonsucesso entrou no coletivo um senhor de uns sessenta anos, negro, vestindo uma camiseta azul manchada, bermuda, chinelos e um chapéu branco já bastante encardido. O homem de barba muito branca lembrava-me aqueles quadros antigos, de preto-velho, com cachimbo na mão e olhar penetrante.
De uma sacola ele tirou um cartapácio de revistas amassadas e começou a distribuí-las, uma por passageiro, em seguida anunciou a venda: “- 50 receitas de salgadinhos! Empadão, empadinha, risole, coxinha, kibe, croquete... na banca paga R$5,00, mas na minha mão vai levar por R$ 2,00!”.
Folheei as páginas e li apenas os títulos das receitas – única coisa que conseguia enxergar – estavam lá todas as iguarias inimigas da boa saúde cardíaca. Com os polegares de ambas as mãos marcando alguma página aleatória, fechei a revista e virei-a de lado para ver o preço: R$ 5,00. Resolvi não aproveitar a “promoção”, pensei que há séculos nem eu nem Dani comíamos salgadinhos de qualquer espécie, havíamos exorcizado essa desgraça de nossas vidas. Além do mais, estava na cara que aquelas revistas eram edições recolhidas que o sujeito arrumara de graça e queria ganhar dois reais em cima de cada uma.
Os demais passageiros pareciam compartilhar do meu pensamento, o velho não vendeu uma revista sequer. Sentou-se do lado direito do coletivo, umas duas cadeiras à frente de onde eu estava. Observei-o pela diagonal, em seu rosto uma expressão resignada, como de quem está acostumado a eventuais fracassos de venda. Nos fones começou a tocar Tears in Heaven do Eric Clapton.
Senti-me mal por não ter comprado a revista. O que são R$ 2,00 afinal de contas? Isso não pagaria nem a passagem do ônibus. O sujeito poderia estar usando como desculpa a idade e a miséria, mas não, estava vendendo revistas com receitas de salgadinhos. Ainda haveria tempo de reverter a situação? O MP3 player do celular tocava: - Would you hold my hand If I saw you in Heaven? Would you help me stand If I saw you in Heaven? Linda canção.
De súbito, interrompi a música, liguei a câmera do celular e tirei uma foto do homem. O fiz porque sabia que escreveria sobre isso aqui no blog, só não sabia ao certo sobre o quê: seria sobre minha covardia de não ter voltado atrás e comprado uma revista inútil para ajudar o homem ou sobre a grandeza de reconhecer a própria mesquinhez, ter tomado a iniciativa de pagar míseros dois reais e ter dado alguma esperança ao velho? A expressão em seu rosto não mudava, não havia dúvida de que toda uma vida petrificara suas feições, que não esmoreceria diante daquele breve fracasso, que subiria em mais cem ônibus e ofereceria novamente as revistas de receitas, sem implorar, sem se humilhar, sempre paciente e tranquilo diante da negativa dos passageiros. Senti-me pequeno diante do homem experiente e resoluto.
- Senhor, com licença, me vende uma revista? Estendi uma nota de dois.
- Pois não.
- Acabo de lembrar que minha tia adora salgadinhos. É boa a revista?
- É, tem receita de coxinha, risole, kibe... – ele folheou a revista e, muito solícito e animado, mostrou suas receitas prediletas. Ouvi com atenção, acenei com a cabeça demonstrando grande interesse.
O velho desceu no ponto seguinte, na altura da passarela 4, próximo à Linha Vermelha. Tornei os fones aos ouvidos e o player continuou a música: - I know there'll be no moreTtars in heaven. Com o peito aliviado, só então me senti digno de continuar ouvindo a canção, naquela bonita e agradável tarde de inverno.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Artigos de revista, peixes-predador e endocrinologistas

Depois de alguns dias envolvido com as matérias da Revista CPT, estamos de volta a nossa programação normal: os artigos já estão prontos e entregues. Nesse meio tempo, só redigi dois meios-posts para o blog, já que eu não consigo escrever mais de uma coisa ao mesmo tempo.
Um detalhe interessante que eu gostaria de registrar é que foi menos difícil do que eu imaginava escrever os tais artigos, já que tenho praticado bastante aqui no blog. É interessante, eu vivo repetindo aos meus alunos que “escreve bem quem escreve sempre”, mas até iniciar este blog, há pouco mais de dois meses, eu mesmo nunca tivera o hábito de escrever regularmente, e agora sinto-me até meio frustrado quando passo mais de uma semana sem postar nada. Se esse negócio de escrever virar um vício, eu estarei, com o perdão da palavra, fodido, já que terei de somar esse aos vícios em computador, jogos e filmes.
Enfim, por questões éticas, só vou reproduzir minhas matérias da Revista CPT aqui depois da publicação, que deve ocorrer na segunda quinzena de agosto. Na ocasião, vou disponibilizar também o filme Gran Torino sobre o qual escrevi uma crítica que também será postada.
E já que neste post estou apenas registrando os acontecimentos, vão duas entradas para o meu diário público:
1 - Aprendi que nenhum peixe deve ser assado por mais de quinze minutos, ponto. Na segunda-feira assei um peixe enorme comprado de véspera, julgando pelo tamanho, decidi que ele deveria ficar no forno por uns trinta minutos: triste engano! O bicho ficou desmanchando e a cara dele ficou parecida com a do predador (vide montagem com foto do próprio peixe).
2 – Hoje Dani e eu fomos ao Centro para ver um endocrinologista a fim de que ela fizesse alguns exames e montasse um programa alimentar. Depois da consulta ficou claro que há um abismo separando a competência de um simples nutricionista e do médico capacitado: antes de elaborar qualquer dieta milagrosa, pediu uma bateria de exames detalhados para não comprometer a saúde da paciente. O último nutricionista que a Dani consultou passou uma lista de substituições padrão, na qual constavam ovos e nuggets, venenos para quem está com colesterol alto (na época era o caso da Dani).
Registrados esses eventos, dar-me-ei um descanso de uns dois dias e terminarei a outra metade daqueles meios-posts pendentes.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Sai o professor, entra o redator.

Nesta semana estou preparando meu primeiro artigo para a revista CPT, por isso o blog vai ficar de molho até a próxima segunda-feita, a não ser que nesses próximos dias algo realmente interessante arranque-me do meu trabalho para a revista. Serão dois artigos: um sobre a importância dos filmes clássicos e sua influência no cinema contemporâneo e uma resenha sobre “Gran Torino”, novo filme de Clint Eastwood e próximo a ser disponibilizado aqui no Três por Cento.
Quanto a novidades relevantes, somente a bem-vinda chegada do recesso escolar (o que na verdade não é novidade nenhuma), que vem enfim aliviar o estresse decorrente desse último bimestre. Comemoramos o início desses quinze dias de alforria com churrasco de filé mignon ao alho, cerveja gelada e outras beberagens mais encorpadas. Ah, e a gloriosa linguiça de frango, é claro!

Ambos os artigos serão publicados aqui no blog tão logo a revista fique pronta.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A cachaça, o chocolate e o escritor.

Não vou reclamar mais uma vez da quantidade de trabalho burocrático acumulado, já que está muito claro, especialmente para quem me conhece, que o mês de julho é brutal para os professores. Uma vez que não é possível fugir desse trabalho doméstico, tornemo-lo mais agradável.
Hoje o dia já tinha sido estressante, com um problema nas cópias das minhas provas do Marechal Alcides, que ficaram prontas em cima da hora para aplicação – nesse meio tempo tive de aturar dezenas de alunos impacientes-e-loucos-pelo-meu-sangue que não paravam de perguntar: “- Fessô, vai tê prova?!”, “- Já tá pronto, fessô?”, “Deixa a prova prá ‘manhã!”. Oh my fucking God, foi necessária muita paciência.

Em casa, hora de organizar as notas do Mochón, já que o COC é amanhã. Corrigi algumas provas de recuperação (Céus, acabo de lembrar que NÃO passei as notas de recuperação para a tabela final... ah, foda-se, agora que comecei não vou parar de escrever, quando terminar aqui passo as notas a limpo) e organizei toda a tabela com as notas do 1º e 2º bimestres. Já ia passar para o serviço da outra escola quando percebi que me encontrava naquele estado crítico de estresse que te leva a cometer erros em tudo o que está fazendo.
Reclinei o corpo na cadeira e cruzei os braços, a coluna rígida como um pau, a cabeça levemente inclinada para baixo e os olhos levantados fixos no monitor, mas sem ver nada. Duas da manhã e eu fazendo trabalho da escola. Virei a cabeça pouca coisa para a direita, olhei de esguelha a garrafa de Nega Fulô, presente do mestre Zé Manuel no meu aniversário. Levantei-me sem nem desligar o monitor, peguei a garrafa, um copinho daqueles apropriados para cana e fui para o sofá.
Estava um frio cortante, até a cachorrinha Ricota estava espirrando. Tomei a primeira dose da cachaça com serenidade, uma cara séria, como se aquilo fizesse parte de um ritual para exorcizar o estresse, o que efetivamente era. Quem toma cachaça, especialmente quem aprecia cachaça, sabe a delícia que é sentir a bebida queimando os lábios, reagindo em cada papila gustativa, descendo num gole único, mas macio, terminando com um estalar da língua. Àquela dose seguiram-se outras duas, depois das quais eu sentira a leveza e o calor tão necessários nessa madrugada gelada.
Logo me lembrei de que eu tinha guardado de véspera meia barra de chocolate Garoto com castanhas de caju. O que mais eu poderia querer depois de três doses de Nega Fulô? Chocolate é perfeito para quem acabou de beber! Peguei a barra, voltei ao sofá e sintonizei a TV no Discovery Channel, único canal onde eu tinha certeza de que não estaria passando nenhuma desgraça. Saboreei o chocolate num deleite duradouro, a mente absolutamente desligada, somente os selvagens nervos do paladar ativados, sentindo na língua atiçada pela cachaça todos os sabores do leite e da castanha presentes na barra.
Se for professor, acredite, cachaça e chocolate fazem milagres na hora de lançar notas, deveriam ser distribuídos junto com nossos notebooks. Seguramente melhorariam o desempenho dos profissionais da educação, os alunos perceberiam nossa motivação e estudariam mais, isso diminuiria a taxa de violência e desemprego, contribuindo para um país melhor e mais justo.
Enquanto nada disso acontece, a Nega Fulô e a barra de chocolate com castanha de caju me tiraram da rotina estúpida e repetitiva de corrigir provas na madrugada e me deram a inspiração para escrever esse post, metamorfoseando o homem-máquina no escritor que redigiu essas linhas, levando-me a esta conclusão tão elementar e ao mesmo tempo tão inusitada: despertam o melhor nos professores de Português, a cachaça e o chocolate.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Quem tem medo de Andy Warhol?

Os senhores eu não sei, mas às vezes tenho vontade de varar um prato na minha televisão. E digo prato porque tenho o péssimo hábito de me alimentar diante do aparelho. Desculpe pela pergunta retórica, mas alguém ainda aguenta ouvir em todos os programas, em todos os canais, em quase todos os horários, notícias sobre Michael Jackson?
Não serei leviano, é sabido que a massa adora fartar-se à exaustão da notícia da moda, banqueteando-se de informações redundantes que começam no Fantástico, passam pelo Domingo Legal e pelo Super Pop e terminam em algum desses programas obscuros que passam na madrugada, como um tal de Show Mix (você já tinha ouvido falar? Nem eu, passa nas madrugadas de domingo para segunda, na Band, é péssimo). Não obstante esse fato, esse bombardeio desmesurado de Michael Jackson foi demais até para esse público: uma avalanche de filmes, especiais, biografias, clipes repetidos até exaurir a paciência do mais ávido telespectador.
Acontece que superestimaram o interesse do público pelo passamento do artista. O conceito do pop nunca esteve tão difundido e tão enraizado entre a massa: os quinze minutos de fama já parecem tempo demais. É irônico: a mesma indústria que despeja sobre nós a cultura pop, que prega justamente a efemeridade da obra de arte e a rápida permuta de toda uma estrutura de valores por outra, agora amarga o desinteresse desse público feroz, faminto por novos fatos ou factóides. “- Michael Jackson eu já sei que morreu, quero saber é se ele era alienígena, se tinha dois pênis ou se tinha chantilly correndo nas veias”. O fato é que o sujeito morreu e, como não há muito a acrescentar, surge diariamente todo tipo de atrocidade disfarçada de notícia nova, coisas tão grotescas que constrangem quem ouve, que vão desde sombras fantasmagóricas vagando pela casa do artista até o rosto do próprio aparecendo no fundo de uma assadeira.
Pense bem, quantas pessoas em sua roda de amigos puxou o assunto “Michael Jackson” neste fim de semana? Tente lembrar. Meus alunos, termômetro confiabilíssimo do pensamento coletivo, não tocaram no assunto uma única vez essa semana. Não acredite quando os programas televisivos afirmam que ainda há uma febre, uma comoção nacional por Michael Jackson. Olhe à sua volta: estão todos preocupados com as contas do final do mês, com as gorduras localizadas, com a prova de Português, com a fidelidade do namorado, com a prestação do carro. Acredito vigorosamente que todos estão cagando para Michael Jackson, porque têm coisas muito mais importantes para ocupar o pensamento e as conversas.
Nada mais pop do que ter o enterro mais famoso do mundo por quinze minutos, e só. Onde quer que esteja, Andy Warhol deve estar se gabando.

sábado, 4 de julho de 2009

Como não ser um estorvo.

Não gosto desses manuais de boas maneiras. A maioria deles possui regras tão estúpidas que duvido que quem as escreveu realmente as leve a sério. Por exemplo, para um jantar com 100 convidados deve-se usar uma mesa de 12 metros, nem mais, nem menos (fonte: “Manual de boas maneiras e etiqueta”, por Maria Cândida Gonzaga). Eu fico imaginando o filho da puta (perdão, não encontrei um sinônimo erudito equivalente no manual de boas maneiras) capaz de observar: “- Que mau gosto... cem convidados e essa mesinha de onze metros”.
Prefiro o bom senso, coisa que todos certamente conhecem – mesmo que superficialmente – mas que muitos fazem questão de não praticar. O bom senso anda de mãos dadas com o senso comum, que consiste na percepção de onde terminam seus direitos e começam os do outro.
Hoje (sexta, 03) eu dormi pouco e acordei cedo. Dei uma aula particular para a Fabiana, que fará uma prova da Aeronáutica nesse domingo (esqueci o nome do cargo) e tentei dormir mais um pouco à tarde, sem sucesso. Agora à noite, morto de cansaço, fui avaliar o trabalho de literatura dos alunos do Marechal Alcides que, graças ao bom Deus, estavam a contento. Montei na bicicleta e corri para casa, na cabeça um só pensamento: ficar de cueca no meu sofá vendo Dona Beija. Mas no sofá, que só deveria ter minha linda esposa de camisola, havia uma visita. Olhei para o relógio: 21:30h. Quem diabos visita alguém a essa hora? E não foi só: a criatura trouxe consigo uma criança de 9 anos, um priminho da Danielle, no auge de sua hiperatividade. Ok, pensei, devem ter chegado cedo, já vão embora. Foram às 23:30h.
Eu me questiono se esse tipo de pessoa que visita os outros em qualquer horário, e ainda por cima sem avisar, tem consciência do desconforto que causa. Será que realmente sabe que incomoda, mas não liga? “- Xô vê, nove e trinta da noite. Vô lá na Dani, se incomodá, é só um pouquinho, quase não vou lá ‘mermo’...”. O pior é que vem para não dizer nada, ou seja, aluga seu sofá por horas a fio e você ainda é obrigado a puxar conversa. Como vai fulano? E ciclano? Ah, a filha da Beltrana casou, mas separou já, uma pena...
A inversão da situação é a parte mais esdrúxula da história: se o dono da casa (vítima) insinuar que está na hora da pessoa ir embora, passará por mal educado. “- Víxi! Fui na casa de Danielle e aquele marido grosso dela disse que estava com sono, pra-ti-ca-men-te me mandou embora!”. Evitei gerar essa polêmica, eu estava cansado até para isso, e fiquei zanzando pela casa ainda uniformizado aguardando a visita se cansar para que eu finalmente pudesse ficar de cueca e ver o Jornal da Globo. Sim, o Jornal da Globo, já que perdi o penúltimo capítulo da novela porque a mulher não calava a boca nem por um segundo, e a pobre da Danielle (vítima) tentava interagir naquela conversa pouco interessante para não passar por mal educada. “- Víxi, fui na casa de Danielle e ela pra-ti-ca-men-te não me deu atenção”.
Evitamos também fazer comentários muito ríspidos sobre o menino eletrizado, que corria pela casa com minha sobrinha em trajetória irregular, passando bem perto do computador, do notebook, das minhas caixas de som surround e de algumas miudezas caras. Imagine se eu falasse do menino. “- Víxi, fui na casa de Danielle e aquele marido grosso dela ficou cheio de merda com as coisas dele, nem deixou a ‘quiança’ se divertir”.
Eu sonho com o dia em que algum altruísta investirá numa campanha publicitária pesada sobre as bases do bom senso, que passará no intervalo do Balanço Geral e da novela das oito; que virá impressa nas sacolas dos Supermercados Guanabara e nos rótulos das garrafas de Itaipava. Para o conteúdo da campanha vão minhas sugestões:

  1. Nunca visite alguém sem avisar com antecedência, de preferência no dia anterior;
  2. Se a pessoa insinuar que não está bem para lhe receber, não fique bravo nem fale mal dela. O direito de estar sozinho, ou apenas com quem se deseja, é essencial para preservar nossa beleza e saúde;
  3. Não leve consigo “visitas surpresa”, sobretudo pessoas que o visitado não conhece e crianças pequenas;
  4. Não comunique que está levando alguém consigo: pergunte se pode ou não levar a pessoa. E nada de perguntas retóricas do tipo: “- Estou levando a namorada do primo da minha vizinha, tudo bem? Ela é tão legal, você vai adorar ela, tá?”;
  5. Evite visitar alguém na hora do almoço ou do jantar, mesmo comunicando. Nos dias corridos de hoje é pouco provável que a pessoa vá dispor de mais um lugar na mesa sem que isso lhe cause algum transtorno;
  6. Se você vai passar o dia na casa da pessoa, deixe isso MUITO CLARO com antecedência. Caso contrário, trate de ir embora num horário adequado, não fique esperando a pessoa dar “pistas” como olhar o relógio e bocejar. Se chegou a esse ponto, você JÁ se tornou inconveniente;
  7. As coisas estão difíceis para todo mundo, ninguém é obrigado a ter coisas em casa para lhe oferecer. Portanto, se vai passar muito tempo na casa da pessoa, trate de levar algo para ajudar na “bóia”.

É claro que você pode discordar de tudo isso, achar um exagero, uma chatice. Mas, se não for pedir muito, dê uma revisada nos itens acima antes de pensar em nos fazer uma visita surpresa, porque em dado momento, por mais que isto vá contra nossa natureza, nós também podemos deixar de lado o bom senso.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Retomando 2 semanas: meu primeiro post-diário.

Qual o resultado das duas últimas semanas do semestre escolar? Duas semanas sem nenhum post, é claro! Pilhas de material burocrático sobre a mesa, provas para elaborar / corrigir e preparação de revisões diversas tomando até o meu último minuto livre. Confesso que fiquei meio frustrado de ficar tanto tempo sem postar, tinha a ilusão de que sempre teria pelo menos algumas horas semanais para dedicar exclusivamente ao blog, mas a realidade não é essa e estou tentando me conformar.
E veja só, esse desabafo não se transformou em um post? Como eu disse lá embaixo, no meu primeiro registro, se isso não se transformar num blog popular, tornar-se-á então um excelente diário! E o que registro agora é isso: eu e Dani estamos há duas semanas, como diria o jingle do César Maia, “Sem parar, sem parar”; aconteceram tantas coisas que mereciam posts nesse mês de junho, mas simplesmente não houve tempo hábil de registrá-las:

  • Dia 12 foi um dia interessante, começou muito mal (não fomos para a academia, caiu um toró do cacete, tive de ir a Padre Miguel devolver um DVD no meio da chuva e esqueci meu cartão de crédito no petshop aqui perto de casa acabando com minhas pretensões de fazer um jantar romântico para a Dani), mas acabou muito bem, comigo e Dani fazendo um churrasco caseiro com uma peça de filé Mignon que já estava no meu freezer há séculos e bebendo umas geladinhas enquanto assistíamos a filmes de terror B. Acabou sendo muito legal, tenho algo a dizer sobre esse dia para um post, em breve;
  • Dia 19 eu fui atropelado por uma moto na Figueiredo Camargo – rua do Ponto Chique – e fui parar no UPA. O atropelamento em si não foi grande coisa, mas a reação das pessoas a esse fato é digna de nota e ganhará também um post bem bacana.
  • Dia 22, na minha avaliação da academia, descobri que perdi quase 2 Kg de massa muscular. É a idade chegando (depois dos 30 perde-se 1% de massa magra ao ano). Não chega a ser uma notícia digna de post, mas vale registrar que me deixou PUTO da vida.
  • Dia 26 meus alunos da turma 1003 do Alcides Etchegoyen apresentaram um trabalho classe A sobre obesidade, provando que nem tudo na escola pública está perdido.

  • Dia 28 eu descobri como é difícil instalar calhas de lâmpadas fluorescentes de 40w na cozinha, especialmente quando se enxerga “bem” como eu. Se não fosse o Iuri me ajudando eu não teria conseguido, conto com a ajuda dele para instalar outra calha de 20w no meu escritório semana que vem.
  • Dia 29 comecei minha nova série na academia, com 3 exercícios a mais. Terei de dedicar pelo menos mais 30 minutos por dia para recuperar a massa magra que perdi. Mais uma vez, percebo como é injusto ter de trabalhar tanto fora da escola, tendo de apertar ainda mais meu tempo para cuidar de minha saúde. Depois perguntam por que grande parte dos professores está fora do peso ou com aparência ruim.

E é isso. Com esse meu primeiro tópico-diário espero estar me redimindo das 2 semanas sem postar. Eu me sinto redimido e é o que importa, estou com um sincero alívio no peito. Como sou um sujeito extremamente metódico, dói-me deixar o blog desatualizado mesmo que, no fim das contas, ninguém se dê conta disso.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Provas e mais provas...

Esse final de semana prolongado (11 a 14) foi tão letárgico que deu dó. Depois de duas semanas se recuperando do passamento do Saci, esses quatro dias foram mesmo dedicados ao descanso. Bem, seriam dedicados ao descanso se no sábado não tivéssemos nos lembrado de elaborar nossas provas para entregar na segunda...

Cheguei a pensar num post sobre o dia dos namorados, mas o ânimo foi ralo abaixo quando nos lembramos das benditas provas, portanto esse post vai ficar para semana que vem.

Que fique registrado para aqueles que acham que professor trabalha pouco (pasmem, há quem ache) que o trabalho burocrático realizado em nossas casas muitas vezes é mais longo e penoso que o dia-a-dia em sala de aula. Elaborar provas não é brincadeira: um vacilo nesse quesito e pode-se cometer uma injustiça sem remédio. São horas de pesquisa nos conteúdos dados, consulta a livros, à Internet, além de mais tempo digitando e formatando para que a prova fique com um bom aspecto.

Poderíamos até pensar, “tudo bem, a gente descansa no próximo fim de semana”. Poderíamos. Sábado que vem haverá o tal “sábado letivo”, invenção do nosso querido Governo do Estado para nos fazer trabalhar um pouco mais.

OBS: Nossa, esse negócio de blog é espantoso! Mesmo que ninguém queira ouvir minhas queixas (compreensível: queixa de professor é sempre recorrente e tediosa), grito-as num post, e o grito fica lá, esperando um clique para libertar-se na cara de um internauta incauto. Sei que é uma indelicadeza, e para compensar um possível aluno leitor eis duas tirinhas que incluí, nesse último fim de semana, nas minhas provas do segundo bimestre:

Estude-as e você provavelmente garantirá dois pontos. É o mínimo que posso fazer por quem ainda agüenta ouvir protesto de professor.

domingo, 7 de junho de 2009

Domingo de um coveiro amador

O fato sobre o qual escrevo a seguir ocorreu há duas semanas, no dia 24/05. Esperei esse tempo porque quando se escreve com o coração pesado a escolha das palavras torna-se mais difícil: ora é demasiado melancólica, ora é simplesmente imprecisa. O texto será, inevitavelmente, triste. Lúgubre até. É árduo escrever sobre a morte, não há nada de piegas nisso. Já que estou disposto a escrever prometo que me esmerarei para que o leitor não seja apenas o espectador de um sepultamento, mas que pegue na enxada junto comigo e segure minhas mãos sujas de terra.

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Quando acordei às 7 horas de domingo após ter dormido pouquíssimo já sabia o que tinha de fazer: iria abrir uma cova e enterrar meu cachorro que morrera há menos de 12 horas numa clínica veterinária próxima à casa da também falecida D. Nazaré, avó de Danielle, no Barata. O veterinário comprometeu-se a trazer o bicho lá pela hora do almoço, o que me dava tempo suficiente para adiantar a primeira parte da tarefa.

Tomei o café da manhã costumeiro, banana, cereais e leite, peguei a enxada que deixara pronta de véspera, montei na bicicleta e fui para o nosso terreno na rua Manaus. Danielle dormia e não me ouviu sair.
Decidi cavar nos fundos do terreno, onde sabia que o mato crescia menos e tinha uma vegetação rasteira que era até simpática. Optei pelo lado esquerdo, oposto ao muro da casa vizinha. A única experiência válida que eu tinha sobre como se abrir uma cova foi assistir a dois enterros, dos meus avós, há alguns anos atrás. Lembro-me que o coveiro devia ter uns 50 anos e abriu com certa facilidade um buraco grande o suficiente para descer o esquife. Confortado com essa lembrança lancei o primeiro golpe na terra, esperançoso de que a tarefa afinal não fosse tão penosa, apenas para ter o cabo da enxada quebrado logo nessa primeira investida. Olhei em volta furioso, a ferramenta inútil jogada no chão, buscando uma solução rápida para o problema: alguém tinha de me emprestar uma enxada e logo.
A salvação foi o Braga, o sujeito que construiu minha casa e é incapaz de negar um favor a quem quer que seja. Emprestou-me de bom grado a enxada, dando-me os pêsames pelo passamento do Saci enquanto martelava a peça de metal contra o cabo de madeira, deixando as peças bem firmes.
De volta ao terreno finalmente a cova começou a tomar forma, mas o trabalho foi muitíssimo pior do que eu esperava: cavar um buraco era uma tarefa muito, muito difícil. Mesmo com um porte físico médio – não sou nenhum fracote – descobri que descolar nacos de terra do solo duro era um serviço lento e cansativo, o que acabou concretizando o pior dos meus temores: eu comecei a pensar enquanto cavava.
Impossível não se lembrar dos momentos que passamos com o bichinho desde que o pegamos na rua com a pata machucada, em 2001. Foi indubitavelmente o melhor cachorro que já tive: sempre alegre, carinhoso, sorridente, não havia quem não gostasse dele. A covinha tinha de ser do tamanho certo, não iria colocar o bicho todo dobrado ali dentro. O suor escorria pesado e em grande quantidade pela testa e pelo nariz, colava a camisa nas costas e no peito, mas não importava, ele merecia, ia ter o seu jazigo do tamanho adequado. Doeu-me muito sobrepor a imagem do animal vivo sobre o buraco, para medir o tamanho e a profundidade, senti o peito apertado.
Ele adorava subir nas coisas, tinha horror a ficar no chão, meus amigos o apelidavam de “cat dog” ou “bird dog”, pois só vivia empoleirado em cima das cadeiras e até mesmo da máquina de lavar. Sempre perto, onde quer que estivéssemos, andava atrás de nós pela casa toda. E ainda agora ficaria por perto. O veterinário tinha um amigo que supostamente iria cremá-lo na Rural, mas quem garante que o sujeito não o jogaria na primeira lixeira que encontrasse? Não, ele ficaria aqui no nosso terreno, o mais próximo que consegui da nossa casa, numa sepultura digna da amizade que dividiu conosco por quase 10 anos.
A enxada batia nas pedras, tive de me agachar algumas vezes para arrancar pedregulhos que impediam o progresso do trabalho. Quase pronto, um pouco mais fundo, pensei. A idéia de que a cova ficasse rasa demais me apavorava, lembro-me de que isso me passou pela cabeça enquanto minha avó era enterrada, achei que o buraco estava raso, mas era impossível falar qualquer coisa a respeito. “- Sr. coveiro, o senhor pode fazer a gentileza de cavar mais fundo para que eu tenha a certeza de que os urubus não vão banquetear a minha avozinha?”. Se a velha estivesse viva cairia na gargalhada.
Pronto. Dei uma última olhada e fiquei satisfeito com o resultado, não fosse o tempo que levara para cavar, diria que fora um trabalho perfeito. Lavei o rosto e os braços na biquinha próxima ao portão, devolvendo ao solo o tanto de terra que ficara colado na minha pele. Deixei a enxada recostada no muro próximo à cova, saí e tranquei o portão.
Era domingo, um peixe cairia bem para o almoço, ainda havia tempo de conseguir um exemplar fresco. Fui com a bicicleta até a barraca próxima ao Guanabara e comprei uma corvina de tamanho médio. Voltei para casa e temperei o peixe, aguardando o telefonema do veterinário que não tardou a vir. Quando pus a corvina na geladeira não pude deixar de dissociar desse o ato de se colocar um cadáver num freezer de necrotério. A cabeça estava cheia de idéias tristes e mórbidas.
Marquei com o veterinário próximo ao quartel da ESIE e de lá fomos para o terreno na rua Manaus. Ele me entregou o corpinho dentro de um saco verde, desses usados para se colocar lixo. O rabinho dele apareceu e foi como uma apunhalada no coração. Engoli seco e agradeci o veterinário pelo empenho em tentar salvar meu amigo. Ele retribuiu com um aperto de mão e disse que estávamos quites, eu não lhe devia nada. Estavam de óculos escuros, o veterinário e sua companheira, que não fez questão de sair do carro nem de me dar bom dia. Partiram em direção à Avenida Brasil, para curtir em algum lugar aquele bonito domingo de sol.
Fiquei muito satisfeito ao ver que a cova correspondia ao tamanho do animal. O saco verde-oliva drapejava e eu pus a mão espalmada na lateral do bicho para ter a certeza de que não havia sinal de respiração. Só então me despedi e puxei a terra por cima, trabalho que concluí em menos de 5 minutos. Compactei o solo com a enxada e fiquei alguns instantes observando. Pensei em fazer uma cruz para marcar o local, mas lembrei-me de que o cachorro não era cristão, pelo menos se era nunca tinha me contado, e resolvi circundar com pedras a pequena sepultura, obtendo um razoável resultado estético. Lavei o rosto deixando propositalmente que um pouco de água umedecesse minha boca, peguei a enxada do Braga e dei uma última olhada para trás. Nosso terreno era, agora, um cemitério. Saí, tranquei o portão dando duas voltas na chave e voltei para casa.
Eu e Danielle nos abraçamos muito e choramos. Cuidamos do bicho até o final, proporcionamos-lhe a melhor vida e o melhor enterro que pudemos. Estava na hora do almoço, era hora de assar aquele peixe. Peguei uma assadeira e já ia transferir para ali a corvina quando vi que ainda havia terra sob minhas unhas. Antes de lavar mais uma vez as mãos, olhei para a terra e para o peixe. Então olhei para o lado, para a cadeira de plástico sob a qual o bichinho gostava de dormir e senti mais uma vez o peito apertar. Isso vai demorar a passar, esse aperto. Os olhos mortos do peixe, sem brilho, não refletiam nada. A terra debaixo das unhas correu para o esgoto com a água fria da torneira. Na terra, no peixe e no peito somente a morte e o desalento.

terça-feira, 2 de junho de 2009

O Lutador: um filme para ser lembrado, sempre.

Sou fã de cinema desde moleque, quando frequentava os poeirinhas aqui de Realengo e de Bangu. Lembro que enquanto a turma estava no campo jogando bola, eu estava todo engomado indo ver qualquer coisa que estivesse passando no Cine Realengo, hoje uma igreja evangélica cujo nome não me recordo. Coincidência ou não, até onde sei, daqueles garotos eu fui o único efetivamente bem sucedido. Entendam por bem sucedido trabalhar com aquilo que amo, ter uma esposa maravilhosa e uma casa enorme onde posso continuar vendo meus filmes com o som num volume altíssimo. Sim, o cinema opera milagres.
Desenvolvi um critério bem particular para eleger meus filmes preferidos: um bom filme é aquele que sem querer você acaba sintonizando enquanto passa os canais e não resiste a vê-lo até o final. Um ótimo filme é aquele que quando você sintoniza sem querer você continua passando os canais, porque julga um absurdo ver um ótimo filme já começado. Um filme excelente é aquele que você compra e faz questão de chamar os amigos para ver e discutir. Há ainda uma última categoria: os filmes inesquecíveis. Esses são aqueles que eu vejo um sem número de vezes, vejo pela metade, vejo inteiros, dublados, legendados, com ou sem os amigos. Desses não enjôo nunca, nunca. São obras-primas seletas, que de alguma maneira me tocaram e frequentemente me vêm à lembrança.

“O Lutador” (título original: “The Wrestler”, Estados Unidos, 2008) integrou recentemente essa minha lista especial. Talvez seja o único filme, pelo menos o único que conheço, que trata da realização pessoal de uma perspectiva diferente: o que você faria se dedicasse sua vida toda a um sonho, alcançasse plenamente esse sonho e de súbito tudo fosse arrancado de você, irreversivelmente? Você aceitaria uma vida alternativa, sem brilho, caminhando sobre os cacos do sonho despedaçado, ou arriscaria tudo para resgatar a antiga glória, mesmo que isso acarrete em sua própria destruição?
Randy (Mickey Rourke, arrebatador) dá sua própria resposta com seu “Ram Jam”. Quando assisto a esse filme, e já o assisti inúmeras vezes, é inevitável que eu me faça esses mesmos questionamentos. A vida é uma estrada de mão única, deve ser terrível chegar tão longe e descobrir que há um bloqueio na estrada, que o obrigará a seguir por um desvio de asfalto esburacado e destino incerto. Ver “O Lutador” faz pensar nas decisões que tomamos, no quanto sacrificamos nossa saúde e nossa família por um objetivo qualquer. Daqui a alguns anos esses sacrifícios podem não ter valido a pena e então terá sido tarde demais para qualquer redenção. Por isso, exatamente por isso, é que eu jamais coloco meu trabalho na frente da minha saúde e da minha família, até porque no fim é só isso que nos restará: nossa saúde e nossa família.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Partida de um amigo querido

Não houve um post nessa semana devido à morte do Saci, nosso querido animalzinho, no sábado passado, dia 23. Naturalmente não tive cabeça para sentar ao micro e escrever coisa alguma. Ficamos muito abalados, e só hoje decidi registrar aqui o acontecido.


Ontem o veterinário nos entregou o corpinho, que eu enterrei no nosso terreno da rua Manaus. Sobre esse evento eu escreverei em breve.
Fique registrada também a chegada da Ricota, nossa mistura de pastor alemão com chow-chow que resultou num pastor de língua roxa. Danielle a salvou de um atropelamento em frente à nossa casa, na quarta-feira passada, dia 20. Ela está sendo muito importante nesse período tão difícil para nós.

domingo, 17 de maio de 2009

Domingo sangrento

Sábado é um excelente dia para instalar tomadas elétricas na cozinha. Isso porque ao contrário dos meados da semana pode-se tomar uma cervejinha e ouvir música alta durante o trabalho. Pois bem, estava eu instalando novas tomadas elétricas na cozinha quando o meu Media Player selecionou aleatoriamente dentre 33Gb de MP3 a faixa “Sunday Bloody Sunday” do U2. Levantei a cabeça para ouvir melhor a música, fios na mão esquerda e na direita a chave de fenda de testes. Que letra foda, foi o que pensei.




E é isso mesmo: uma letra foda, engajada, metafórica, inteligente. Achei graça de quando eu era adolescente no início da década de 90 e ouvia essa música sem fazer idéia do que se tratava, já que minhas habilidades na Língua Inglesa ainda eram medíocres. E ainda assim eu adorava a música, achava a melodia poderosa, dava vontade de gritar junto com o Bono: - Tooooniiiiiiiiight!!! We can be as one!
Anos depois, descobri que a música tratava do massacre ocorrido na Irlanda do Norte em 1972 numa manifestação contrária aos abusos e preconceitos que atingiam a população católica. Tropas britânicas entraram em confronto com a multidão, composta em grande parte por mulheres e crianças, matando pelo menos 14 pessoas e ferindo dezenas de outras. Aquele domingo ficou conhecido como o Domingo Sangrento, que dá título à música.
Conectei os fios vermelho e branco e apertei com a chave philips. Esse privilégio de cantar uma música com orgulho envelhece com a minha geração. O que os moços de hoje dirão, daqui a uns 10 anos, das músicas que ouvem? Pouco ou nada. A enxurrada de hip-hop que inunda as rádios não trata de outra coisa que não seja o traseiro de uma musa anônima que rebola numa boate qualquer, ou então supostas insurreições contra o sistema, ainda que nenhum dos cantores saiba explicar direito o que é o sistema contra o qual se insurgem.
Apertei os parafusos do espelho. Um tomada instalada, faltam sete. Enchi meu peito e cantei desafinado junto com os alto-falantes: “Tonight, we can be as one!”. Esta noite, podemos ser como um. Imaginei, num instante onírico, a multidão de manifestantes enfrentando as tropas britânicas e cantando o refrão: - Tonight, we can be as one!
Enchi-me de orgulho. Minha geração, meus amigos, minha esposa, todos cantávamos e dançávamos ao som de idéias, árias de liberdade. Em uma década duvido que os novos adultos se interessem em saber o que cantavam e dançavam, seja por desconhecer o idioma de Shakespeare, seja por pura vergonha.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Manifesto de apoio ao porco

Antes de tudo, é essencial registrar que estamos vivendo uma hipocondríaca moda de “gripe suína” (assim como já vivemos a da “gripe aviária”, da “febre aftosa”, entre outras). Há pouco tempo rebatizaram a tal gripe do porco como “gripe A”, numa tentativa de dissociar a doença do consumo de carne suína. Tarde demais. Nos supermercados as pessoas estão passando longe dos balcões de salgados, temendo que os pedaços de bacon criem garras e voem em suas jugulares.

Estupidez à parte, tratemos do que importa: por que tanto pavor da tal gripe suína se basta sair à rua para verificar que as pessoas não têm cuidado com a higiene, expondo-se dessa forma a tantas outras moléstias potencialmente perigosas, como a meningite, a tuberculose e a própria gripe humana?
Estive em Bangu, sábado passado, para trocar umas roupas que não me serviram e comprar algumas coisas para o dia das mães. A primeira loja que visitamos – minha esposa e eu – foi a Grippon, localizada no centro do bairro. Lá, Danielle comprou algumas bijuterias para presentear minha mãe. Entreguei à operadora do caixa uma nota de R$ 50,00 para pagar as compras e nesse momento a moça, que não aparentava estar muito satisfeita com a sua vida, levou a palma da mão até as narinas e deslizou o antebraço para cima como se uma roldana em suas ventas auxiliasse o movimento. Parou apenas quando o nariz quase chegava à parte interna da junta, deixando um rastro de líquido transparente e brilhante que se iniciara em seu pulso. Limpou a nojeira na roupa e deu o troco nas lindas e asseadas mãos de minha esposa. O sistema imunológico dela daria um soco na cara da atendente se pudesse.
Mais à frente, passando pelo calçadão e indo em direção às escadas rolantes, um sujeito que parecia estar fazendo a segurança da peixaria em frente enfiou uns dois centímetros do seu indicador direito no ouvido e iniciou um frenético movimento circular no eixo do dedo como se quisesse raspar o tímpano com a unha. Ele ria e conversava com os outros enquanto fazia isso. Ao chegarmos à escada rolante, nem Danielle nem eu tivemos coragem de segurar nos corrimões. Sabe-se lá se o sujeito da peixaria ou a operadora de caixa da Grippon passaram por ali.
Finalmente, quando comprávamos alguns ingredientes para o estrogonofe do dia seguinte, no Supermercado Guanabara do calçadão de Bangu, não pude escapar ao meu destino. Uma mulher gorda, mulata, vestida com roupas baratas de péssimo caimento passou à minha direita caminhando mais rápido do que eu. Quando ela tossiu aquela tosse barulhenta e úmida lembro-me de que seus dois braços continuaram fazendo os movimentos alternados típicos de quem caminha, já que a criatura não fizera questão de tapar a boca com a mão. Recebi aquela chuva asquerosa no ombro e no pescoço, enquanto a via se afastar desengonçada e distraída.
O espaço aqui seria pouco para manifestar minha repulsa e indignação. Não me espantaria se, num futuro próximo, para evitar a gripe humana, déssemos com porcos usando máscaras cirúrgicas.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O funeral da arrogância

Eu sempre quis escrever um Blog, mas tinha receio de que seria um total fiasco, que ninguém o leria e que ficaria jogado, perdido no meio das zilhões de páginas inúteis e pouco interessantes que sufocam a rede. Esse risco de ter o orgulho ferido sempre me rendeu certo desânimo.
Para começar a escrever, tive de me despir de toda a presunção, cujo tecido me apertava especialmente na altura do peito e do pescoço. Conformei-me com o fato de que talvez eu mesmo seja o solitário leitor de minhas palavras, e fiz disso a força motriz que impulsionará a escrita: se esse blog será uma espécie de diário, que seja! Nunca fui muito bom em decorar minhas próprias visões das coisas.
E por falar em visão, ela dá nome ao Blog: três por cento. É maios ou menos o quanto enxergo, graças à degeneração causada pela Doença de Stargardt. Nunca fiz drama sobre isso e não começarei hoje: escolhi esse título tão somente porque me pareceu original, e como é difícil ter idéias originais, decidi não desperdiçar essa. Além do mais, enxergar o mundo com baixa visão é algo tão singular que merece ser documentado, e de quebra confere a esse blog um caráter interessante.
Tratarei aqui de quaisquer temas que me despertem a atenção, e não serão poucos: sou um sujeito atento a tudo e a todos. Professor, cinéfilo, nerd assumido, marido e cidadão inconformado, não me aterei a temas específicos, falarei sobre o que der na telha. Na fila das resenhas literárias, o primeiro tema será “Onde os Velhos Não Têm Vez”, que pretendo começar a ler ainda hoje. Bote aí uns 2 meses até sair a resenha, já que leio devagar pacas.

Enfim, se esse blog não receber visitas, estarei resignado. Finalmente tenho uma oportunidade de registrar, em tempo real, impressões datadas de maneira organizada. E aqui vai a primeira: essa vitória que tive sobre minha soberba – o despeito de escrever sem saber se serei lido – soa como libertação. Escrever essas palavras sem a perspectiva de um leitor foi umas das coisas mais arrebatadoras que me aconteceram neste ano.