Mostrando postagens com marcador opinião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador opinião. Mostrar todas as postagens

domingo, 27 de junho de 2010

Nokia 5530 XpressMusic

Neste mês finalmente adquiri um Smarphone, algo que já queria há tempos para controlar a presença dos alunos no Mochón e no Alcides. Como, naturalmente, não tenho bala na agulha para comprar um iPhone, peguei um modelo custo/benefício da Nokia. Eis minhas impressões sobre o aparelho.

Vantagens:
  • O preço: paguei R$ 538,00 na FastShop, uma verdadeira bagatela para um Smarphone touchscreen.
  • O sistema operacional é o Symbian, que possui uma vasta oferta de aplicativos utilíssimos para serem usados no dia-a-dia.
  • Quickoffice: uma suíte que permite criar e editar documentos do Word, Excel e PowerPoint. Por si só, já vale cada centavo do aparelho, é a minha principal ferramenta de trabalho no celular.
  • Wi-fi eficiente, fácil de usar e configurar.
  • Com uma conta do Nokia OVI, é possível manter a lista de contatos num site da Internet. Quando o celular faz a sincronização, também atualiza a agenda online. Sem dúvida, um recurso muito interessante.
  • O aparelho é pequeno e leve, algo raro nos Smartphones.
  • Já vem com cartão de 4Gb, o que gera ainda mais economia.

Desvantagens:
  • A bateria dura pouco, especialmente se usar a rede wi-fi.
  • O processador é um pouco lento, certos aplicativos demoram alguns segundos para serem iniciados.
  • A qualidade da câmera, mesmo sendo de 3,2 megapixels, deixa a desejar.

Comparando os prós e os contras, no meu caso, o aparelho atendeu a todas as necessidades. Já comecei a fazer a chamada dos alunos pelo celular e o processo ficou bem a contento, apesar de eu ter certa dificuldade devido a minha baixa visão.

Informações do aparelho no site da Nokia

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Quando a inércia e o comodismo falam mais alto

Quando cheguei em casa hoje, depois de arrastar a minha bicicleta do Mochón até aqui sob o sol assassino das 14:00 (quebrara-se o eixo da roda traseira) estava cansado até alma. Magoado. Desmotivado. Penso: do que adiantou ter me capacitado tão bem no curso do SESC se aqueles para quem eu devo transmitir o conhecimento não têm interesse sincero em adquiri-lo?
Passamos a manhã organizando o primeiro planejamento interdisciplinar do ano. A verdade é que o dia não começou bem: recebemos a notícia de que turmas foram fechadas, muitos professores perderam tempos na escola e alguns foram devolvidos à coordenadoria. Isso já não deixou o clima muito propício à receptividade de novas idéias.
Enfim, fui com meu grupo para uma sala e começamos a fazer o planejamento interdisciplinar, partindo de um texto e fazendo o link com outras disciplinas. Começou bem, mas bastou eu me ausentar da sala por meia-hora para tudo ruir. Uma professora veio com notícias de outra sala, em que o planejamento estaria sendo feito à moda antiga, o que exige muitíssimo menos trabalho. Como resultado, assim que eu retornei, recebi uma dúzia de carrancas ao tentar dar prosseguimento ao trabalho: o maldito vírus do comodismo veio encubado naquela professora e contaminou a sala. Tudo perdido.
“- Ai, que fome...”, “- Faz assim mesmo!”, “- Do outro jeito é mais fácil”, “- Que dor de cabeça!”, “- Ainda tem que fazer mais?”.
Tomado por uma irritação que não é do meu feitio, fechei o notebook, encerrei a reunião e vim para casa cuspindo marimbondos. O que há com essa gente? Como tem a cara-de-pau de reclamar dos problemas da educação se são incapazes de ousar fazer um simples planejamento diferenciado? Faltou boa vontade, é claro, mas o problema vai além.
Nossa classe sofre de uma moléstia terrível, que ainda não recebeu nome, mas que consiste dos seguintes sintomas: reclamar de tudo (alunos, sala de aula, direção, salário) e não fazer absolutamente nada para mudar. Quando uma nova proposta é apresentada, sentem-se insultados: “- Ah, é mais trabalho pra gente!”, “- Não vai dar certo!”, “- Não ganho pra isso!”. Gente assim não tem o direito de reclamar de nada. Gente que trabalha infeliz, que queria estar em outra profissão, mas que encontrou no magistério público um porto seguro para suas vidas. Gente sem vocação, que trabalha da mesma maneira medíocre há anos e tem preguiça de melhorar. Gente mole, parada, sem-graça.
Poucas são as vezes em que penso seriamente em desistir de um projeto, mas essa idéia passou-me hoje pela cabeça. Não é possível trabalhar com pessoas que não querem mudar porque mudar dá trabalho. Pedir que um professor de matemática leia um texto de uma única página é considerado indecente, pedir que ele elabore uma atividade a partir dali, uma ofensa. Não houve na formação continuada de professores uma oficina que nos ensinasse a lidar com isso, especialmente quando essas mulas são a maioria. Não sou caubói, não nasci para laçar gado.
Não é verdade que os professores sejam os grandes culpados do fracasso da educação neste país, mas isentá-los completamente da culpa é leviandade. Há, sim, um grupo enorme de maus profissionais que estão insatisfeitos, mas não abandonam o magistério; que reclamam dos alunos, mas não tentam cativá-los; que se queixam da apatia do governo, mas que fogem das capacitações oferecidas; que reclamam dos maus resultados, mas se negam a mudar seus métodos. Hoje estou triste, pois descobri estar cercado por muitos desse naipe.
Haverá uma nova reunião na próxima semana, quando será feita mais uma tentativa de planejamento interdisciplinar. Entretanto, morreu no meu peito a esperança de encontrar outros que, como eu, acreditem verdadeiramente que uma nova proposta possa melhorar o mundo. Resta, agora, atiçar as mulas para que caminhem. Mas o caminhar das mulas não é lá grande coisa mesmo.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Natal em família: FAIL.

Conforme anunciado em post anterior, neste ano nós resolvemos mais uma vez tentar um prosaico Natal em Família. Eis a definição, na teoria: passar o dia 24, inclusive a ceia, com todos os membros disponíveis da família; entenda-se por disponíveis aqueles que moram relativamente próximo à casa dos anfitriões (nós) e que tenham com eles no presente momento um relacionamento no mínimo aceitável e com alguma estabilidade. A teoria também indica que o dia 24, que é tomado pelos preparativos da ceia, seja também uma animada reunião onde todos confraternizam e se solidarizam, pondo de lado suas diferenças, culminando no momento da ceia, onde todos devorarão os quitutes preparados em conjunto por toda a família. Em quatro tentativas, as coisas nunca saíram assim.
Vou pular a descrição das falhas anteriores, porque não me lembro direito dos detalhes. Mas vamos explicar por que todo ano Dani e eu preferimos ficar a sós no Natal.
Os problemas sempre começam na organização da ceia: uns sempre trabalham mais, gastam mais e se estressam mais do que os outros. Neste ano os patos da vez fomos Dani, eu e minha mãe. A velha enfrentou uma fila estressante de 4 horas no mercado, enquanto eu gastei quase R$ 200,00 para comprar os ingredientes para a janta. Dani e eu também passamos na peixaria e compramos tainha e camarões para aumentar o rango.
No dia 24 em questão repetiu-se o filme tantas vezes visto por nós: minhas tias limitaram-se a ficar sentadas e falar sandices enquanto Dani, minha mãe e eu nos esfolávamos na cozinha para preparar aperitivos, bebidas e a ceia propriamente dita. Como há anos nós aqui de casa adotamos uma postura alimentar na qual não nos entupimos de lixo, ironicamente, passamos o dia preparando iguarias que nós mesmos não comeríamos, como rabanadas e salgadinhos. Enquanto suávamos como porcos na cozinha, minhas queridas tias e minha sogra jogavam conversa fora e enfiavam as frituras goela abaixo. No momento da ceia ainda tivemos de servi-las, já que mal se movimentam de tão obesas. Ao fim, não lavaram um copo e foram para casa de bucho cheio.
Se o Natal é símbolo de solidariedade, alguém deveria informar essas pessoas de que isso inclui dar uma força nas tarefas mais difíceis, ou pelo menos colaborar financeiramente, já que o negócio não está bom para ninguém. Fingir-se de desentendido e ficar acomodado parece não ser pecado para essa gente que adora se aproveitar do próximo nessas datas em que somos mais tolerantes (“- Ah, deixa pra lá, é Natal!”). Como se o bom senso deixasse de existir nesse dia.
Por esse motivo, portanto, é que Dani e eu sempre passamos o Natal sozinhos. O Natal, essa data tão bonita para todos, a despeito de credo, símbolo de união e confraternização, deve ser compartilhado somente com aqueles que partilham do mesmo sentimento. Encher a mesa de parentes deitões e que só aparecem uma vez por ano, para cear, não tem nada a ver com tolerância: tem a ver com ser bobo e deixar-se agredir em nome da falsa premissa de que no Natal perdoa-se a falta de educação e a cara-de-pau.

sábado, 19 de dezembro de 2009

A aula no escuro.

O ideal é que eu escreva este post o mais rapidamente possível. Por quê? Porque acaba de faltar luz, estou digitando no breu, iluminado apenas pela luz que vem do monitor do notebook. Estou no sofá, à direita, Danielle está na mesa dando aula a três jovens alunos que farão a prova para o Colégio Pedro II neste próximo domingo. Para que a situação se completasse de maneira perfeita, só se eu conseguisse publicar esse texto através da conexão do próprio notebook, o que não será possível porque essa droga de modem que o Estado nos deu não está conectando. Pena.
O interessante desta esdrúxula situação, é que as crianças continuam estudando, como se nada houvesse acontecido. Danielle está se esforçando para ler à luz das duas velas que iluminam a mesa, dando dicas para as redações, comentando sobre o alinhamento dos parágrafos, a separação das sílabas, o uso de argumentos coerentes. No escuro.
Esses meninos tão esforçados e inteligentes provavelmente serão aprovados no concurso, porque estão estudando, ainda que seja no escuro. Eles riem, a situação para eles é divertida. Se fosse eu, menino, sozinho na casa dos outros, estaria apavorado (Deus, como eu era uma criança tapada). A alegria e o bom astral da aula contagiam meu espírito (a mãe de um dos meninos acaba de chegar, provavelmente preocupada. Bobagem, o jovem está radiante, certamente nunca estudara redação iluminado apenas por velas). A tecnologia, a eletricidade, parecem tão inúteis e dispensáveis neste momento.
O modem não conecta. Terei mesmo de esperar a luz voltar para publicar no blog pelo meu computador. A mãe de um dos alunos está na sala, todos conversam sobre as expectativas do concurso, ninguém parece ligar para a falta de luz, apenas eu, tão dependente das bugigangas movidas a eletricidade. Quando expirar a bateria do notebook (neste momento restam 51 minutos) deitarei no sofá com minha cara de bunda até a energia que move meus vícios volte às tomadas.
A mãe do aluno sentou-se, a aula continua. Tão desnecessária a luz elétrica. “- Esse parágrafo está curto em relação aos outros, vamos melhorar...”, Dani diz. Curiosamente, o tema da redação envolve as vantagens dos livros sobre a televisão e o computador, como eles estimulam a criatividade. Lembro-me que, quando criança, eram comuns os blackouts, naquele momento, a garotada saia para a rua e inventávamos brincadeiras e peraltices. Esses momentos são algumas das melhores lembranças que tenho da minha infância. A tecnologia era tão dispensável.
Vou encerrar o post antes que a luz volte, antes que acabe a bateria. A aula dos meninos também já está acabando. Não haverá saída para mim: terminado este post, correrei para a casa da minha mãe, onde há um telefone convencional, e ligarei para a Light, exigindo a volta daquilo que um dia eu desprezei, porque não fazia falta. As coisas eram mais simples, e a felicidade, mais fácil.

domingo, 25 de outubro de 2009

Respeitar o cinema clássico, para entender o cinema hoje.

“Em tempos de arte descartável, modismos e sucessos fugazes não é surpresa que o cinema clássico seja deixado de lado, mesmo sendo inesgotável fonte de inspiração para os diretores de hoje, que bebem de sua água e não lhe prestam o justo tributo.”

É inegável que a cultura pop está enraizada em nossas vidas há muitos anos, os que nasceram a partir da década de 90 do lado oeste do Meridiano de Greenwich viveram cada minuto de sua existência imersos no oceano pop, mesmo que não se dêem conta disso. A premissa básica do pop é a efemeridade: a pipoca (em Inglês popcorn, iguaria que dá nome à tendência) voa apenas uma fração de segundo, quando explode, apenas para cair em seguida junto a centenas de outras para nunca mais voar novamente. Assim é a música pop, a bebida pop e a comida pop: fazem um extraordinário sucesso para, pouco tempo depois, serem descartadas e substituídas por outras, a fim de alimentar um público sempre sedento por novidades.
Essa supervalorização do presente em detrimento de tudo de bom que já foi feito, entre outros males, é adotada amplamente por novos críticos que desconhecem ou desprezam o cinema clássico, fonte de inspiração para tudo o que é produzido hoje. Despreparados, apontam como inovações elementos criados na década de 50 por Franklin J. Schaffner, como roteiros originais releituras pobres dos grandes épicos de William Wyler, como fotografia soberba meras repetições do que Orson Welles fez em 1941 com Cidadão Kane.
Basta digitar a palavra “crítica” mais o nome de um filme qualquer no Google para ser bombardeado por um sem-número de blogs e sites pessoais de pretensos críticos que sequer sabem quem foi Stanley Kubrick. Preocupante é saber que muitos são levados por essas idéias fátuas e improfícuas, acreditando piamente que Eu Sou a Lenda é a adaptação definitiva do livro homônimo de Richard Matheson, sem saber da existência de Last Man on Earth de Ubaldo Ragona, primorosa adaptação datada de 1964, ou The Omega Man (1971) de Boris Sagal, com Charlton Heston no papel do Dr. Robert Neville. Não se trata de saber qual é a melhor das adaptações, e sim do leitor ter a informação correta (mercadoria valiosíssima na Internet) de que tais versões existem. É no mínimo irresponsável que alguém que se rotule crítico não informe tais coisas ao seu leitor, já que está negligenciando dados que são de sua obrigação pesquisar e divulgar. Se não tiver ânimo ou talento para cumprir tal compromisso, é melhor que escreva sobre Justin Timberlake ou Amy Winehouse antes que a pipoca volte ao fundo da panela.

A importância de se conhecer os clássicos vai além de se entender sua influência no cinema contemporâneo. Os filmes, assim como as obras literárias, registram com imparcialidade – ainda que essa na maioria dos casos seja involuntária – os valores e os hábitos da geração de sua época. Assistindo A Marca da Maldade de Orson Welles entende-se que já naquele tempo havia a rivalidade entre americanos e mexicanos e a corrupção policial, mas o mais interessante é observar como os punks contratados pelo detetive corrupto Hank Quinlan (Welles) drogam Susan Vargas (Janet Leigh): eles fumam maconha e assopram na cara da pobrezinha! Seis delinqüentes puxando seus baseados e afogando a mocinha indefesa na nuvem alucinógena. O espectador de hoje, acostumado às atrocidades de Jogos Mortais e O Albergue, certamente estranharia (por que não enfiam logo o cigarro na boca da coitada ou metem-lhe uma injeção de heroína?). O caso é que na década de 50 o público não estava preparado para violência explícita nas telas, muito menos tortura, daí a solução bem-comportada de Welles. Saltando para os anos 80, Indiana Jones e o Templo da Perdição é quase um hino ao machismo boçal daquela década. A mocinha Willie Scott (Kate Capshaw) talvez tenha sido uma das primeiras mulheres-samambaia da história do cinema: sua sensualidade, sempre ressaltada por trajes mínimos (para o padrão da época), é sua única virtude. Fora isso, é imbecilizada, fragilizada e humilhada durante toda a exibição da fita. É arrastada de um lado para o outro, jogada na sujeira, quase obrigada a comer uma sopa de olhos e enfiada no meio de toda sorte de bichos asquerosos, numa clara prévia dos torture porns. Havia naquele tempo certa tolerância com idéias machistas e racistas, naturalmente, esse filme não passaria despercebido hoje sem sofrer uma crítica feroz.

É necessário prestar tributo ao cinema clássico por todas as grandes idéias que são transformadas e recicladas até hoje. Não se trata de saudosismo: reinventar e atualizar o que já foi feito é algo bem-vindo e necessário, mas não seria justo esquecer dos pioneiros das grandes sacadas do cinema. Quando se fala de inteligência artificial e do embate homem versus máquina, por exemplo, logo vêm à cabeça filmes como O Exterminador do Futuro, Eu, Robô e Matrix. Entretanto, os cinéfilos mais atentos se lembrarão de quatro nomes: Roy, Pris, Zhora e Leon, respectivamente Rutger Hauer, Daryl Hanna (sim, ela já era muito perigosa antes de Kill Bill), Joanna Cassidy e Brion James: tratam-se dos replicantes renegados de Blade Runner (1982) que, ao contrário dos seus primos do século XXI que insistem em destruir a humanidade por motivos vagos e elusivos, desejam apenas continuar vivos.

Voltando aos anos 70, não se pode deixar de citar Ash (Iam Holm), o insensível andróide de Alien, que por pouco não mata Ripley (Sigourney Weaver) de maneira muito criativa: enfiando-lhe uma revista enrolada goela abaixo. Sua motivação: garantir que o espécime alien chegaria à Terra. Na década anterior, em 2001: Uma Odisséia no Espaço, o mais memorável antagonista cibernético: HAL 9000 (dublado pelo lacônico Douglas Rain), o computador da nave S.S. Discovery que, tomado por convicções pessoais, decide exterminar toda a tripulação para garantir o sucesso da missão. Apesar de ser uma entidade ameaçadora e de personalidade complexa, HAL é representado no filme apenas por uma lâmpada vermelha que, ainda assim, mete mais medo que as garras afiadas e armas futurísticas de Megatron.

Todos os grandes avanços tecnológicos do cinema começaram com os clássicos, desde a revolução do cinema falado até os efeitos especiais. Difícil superar o assombro causado por inovações como os walkers imperiais de O Império Contra-Ataca, que levaram a animação em stop motion a um novo patamar, com modelos realísticos, fundos complexos e ação simultânea de vários elementos no cenário – sem mencionar a criação das armas elegantes para tempos mais civilizados, ou apenas sabres de luz para os que não tiveram a oportunidade de conhecer o verdadeiro Ben Obi-Wan Kenobi (Alec Guinness) no Episódio IV. Um ano depois, em 1978, pudemos ver o insuperável Christopher Reeve maravilhar-nos com as mais realísticas cenas de vôo já vistas em Superman. Até hoje é possível assistir a esse clássico sem a sensação outdate tão comum quando se vê filmes antigos: a produção é caprichadíssima e os efeitos especiais continuam convincentes, mais do que muitos filmes novos baseados em efeitos de computação gráfica de quinta categoria.

Desconhecer os grandes clássicos, para os verdadeiros amantes do cinema, significa apreciar a obra de arte pela metade. Filmes extraordinários como O Lutador de Darren Aronofsky serão ainda mais admirados se o espectador conhecer o fantástico Touro Indomável (1980) de Martin Scorsese. O filme clássico não anula ou desmerece o filme novo, pelo contrário, dá a bagagem necessária para se estabelecer uma comparação saudável, confrontando os valores e os temas discutidos nesta e naquela época, destacando as particularidades que cada ator conferiu a seu personagem. Robert De Niro e Mickey Rourke interpretam lutadores de boxe, mas Jake La Motta e Randy 'The Ram' Robinson são bem diferentes, enxergar as peculiaridades de cada um desses memoráveis lutadores faz parte da beleza que é apreciar cinema.

Por fim, conhecer os filmes clássicos e entender sua importância não tem a ver com desprezar os filmes novos. Dizer que “não se fazem filmes bons como antigamente” é besteira, sempre houve poucos filmes bons e muitos filmes ruins em todas as épocas e sempre será assim, como em todas as manifestações artísticas. Deve-se, sim, fugir da armadilha do pop, não deixar que os velhos e novos clássicos, que certamente virão, sejam desprezados como se nunca tivessem existido, como se tudo o que está sendo produzido nos estúdios tivesse surgido magicamente, do nada. Aceitar tal coisa é como conceber que se dê à luz um homem de 40 anos, bem-sucedido, formado em engenharia de petróleo e com um carro importado na garagem.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A moça dos cupons

Levei mais de um mês para começar a escrever esse post, isso porque tenho certa dificuldade de escrever sobre a morte. Depois de certo tempo, vê-se o fato de maneira mais clara e menos emotiva, o que facilita sua transcrição para o reino das palavras. No dia 21 do mês passado foi quando esse fato sucedeu.
Eu tinha acabado de sair do treino na academia, ainda estava meio agitado por causa da adrenalina que corria nas veias. O relógio marcava 9 da noite, mas eu senti que ainda tinha pique para ir ao Guanabara do calçadão de Bangu comprar os víveres que faltavam na geladeira. O tempo estava agradável, tendendo para o frio, mas não chegava a incomodar. Montei na bicicleta e tive de virar apenas duas esquinas para chegar ao supermercado.
Compras feitas, débito no cartão de crédito e um monte de sacolas com itens diversos, pão integral, queijo minas, embutidos de carnes leves como frango e peru, todas essas coisas que a maioria considera frescura. R$ 69,65. O Guanabara oferece cupons para concorrer a um carro, um cupom para cada R$ 20,00. Eu não tenho o hábito de pegar esses cupons porque tenho uma enorme preguiça de preenchê-los um por um, mas como estava excepcionalmente disposto resolvi buscas os 3 a que tinha direito. Fui até o guichê na frente da loja e, com um boa noite mecânico, entreguei a nota fiscal à mocinha atrás do balcão. Ela conferiu o valor e apertou 3 vezes o botão da maquininha, que a cada toque imprimia um cupom.
– O seu nome é Marcel, não é?
– Isso. – pela primeira vez fitei a moça pouco interessante nos olhos. – aluna do Mochón ou do Marechal Alcides?
– Não, eu sou a *****, irmã do *****, lembra?
Por um brevíssimo momento fiquei estático. Fazia mais de 15 anos, mas eu lembrava bem do nome, só não podia acreditar que estava diante da pessoa. Uma das meninas mais desejadas da época da minha adolescência, daquelas com quadril largo e partes superiores das coxas grandes e globulosas... enfim, com bunda grande e bem formada. O que eu tinha diante de mim? Uma figura disforme, gorda, vestindo aquele uniforme barato do Guanabara, os botões da camisa branca quase arrebentando com a pressão da gordura, as partes da blusa afastadas entre os botões revelavam que a peça estava um número menor. Apertei a mão maltratada e abri um sorriso franco, condescendente.
– Caramba! Quanto tempo! Como está seu irmão?
– Está bem, se separou, está morando comigo. Estamos no mesmo lugar, sabe? – ela olhou para minha aliança – ah, você se casou, né?
O ar de decepção era evidente. Em sua mão não vi aliança alguma, mas eu sabia que ela tivera um filho porque alguém me contara há tempos atrás. Por um segundo tive o ímpeto de me vangloriar do meu casamento, para me vingar da época em que ela não quis sair comigo, mas a figura triste em minha frente não despertava maldade alguma, tentei ser o mais agradável possível.
– Casei sim, já faz alguns anos. Mas você está bem! Que bom encontrar você por aqui. Eu tenho que ir, manda um abração para o safado do seu irmão!
– Mando sim, apareça por aqui! Beijos, tchau!
Afastei-me estarrecido. Aquela menina que tantas vezes me esnobou, que eu nunca beijara, agora estava confinada às próprias banhas, enfiada num balcão apertado de troca de cupons no Guanabara do calçadão de Bangu. O irmão, que tantas baladas passou comigo, que fazia parte do nosso grupo de dança (sim, eu já estive em um) voltara depois de velho para a casa da irmã, abatido pela sina do determinismo.
O leitor deve estar aflito procurando pelo defunto citado no primeiro parágrafo. Talvez isso decepcione quem estava esperando por um corpo propriamente dito, porque o cadáver a que me refiro é cem por cento metafórico, e nem por isso causa menos dor e tristeza. É a morte de minha geração, de minha juventude e dos meus sonhos imaturos de rapazola de 15 anos.
Como negar? Todos, em sua adolescência, acreditavam sinceramente, com candura inimitável, na eternidade das coisas belas. A beleza, o vigor, a inconseqüência romântica, o amor febril, a agilidade física, os sonhos... só é possível acreditar em sonhos tão esplêndidos, que eles sejam possíveis, quando se tem menos de 20.
Há tempos sei que minha mocidade passou, as cobranças da escola, o gás que acaba, a infiltração no teto, a conta de telefone, tudo está aí para me lembrar disso. Entretanto, sempre enxerguei meu passado como algo dinâmico, que de alguma forma estivesse vivo em um canto da lembrança. Por várias vezes me peguei pensando nas festas de rua que varavam a madrugada, na amizade fidelíssima dos companheiros de dança e de copo, no sexo no sexo no sexo (e no sexo). E, é claro, nas meninas de corpo recém-formado, lindas, inalcançáveis, objetivo absoluto e justo de cada respiração minha. Conquistei pouquíssimas, tive o azar de morar numa vizinhança em que todos os meus amigos eram mais velhos, robustos e carismáticos do que eu. Mas o que importa? Eram como ninfas que enfeitavam minhas visões do passado, afresco que emoldurava um imenso mural de doces lembranças.
Ali, naquele lugar estéril e insosso estava a ninfa, hoje uma espécie de medusa cujos cachos de serpente eram atados por uma presilha plástica barata. Aquela mulher, que quando moça era a própria irradiação do desejo e da vitalidade juvenil, agora encarnava a derrota, a estagnação, a ruína. Fez-me lembrar de que quase todos os meus amigos envelheceram e não deram em nada, de que as músicas, os filmes, a cultura dos anos 80 e 90, tudo estava enterrado e não deixava saudade alguma. Fez-me lembrar de que hoje as ninfas são mães solteiras, o corpo deformado pelas gravidezes, com empregos que só exigem o segundo grau completo, quando muito. Aquela mulher comum em seu emprego miserável, vestida naquele uniforme roto, era uma sombra negra e triste que caia sobre a sepultura de minha mocidade.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Resumo da ópera

Os amigos e leitores do Três por Cento vêm acompanhando junto comigo a luta dos professores do Estado contra as propostas indecentes do governador para nosso reajuste salarial e plano de carreira. Pois bem, o martelo foi batido, não há muito mais a fazer, eis então o resumo da ópera – neste caso, está mais para tragédia de Shakespeare.
Depois do absurdo ataque da Polícia Militar aos professores, acreditei que a repercussão do caso ajudaria a mobilizar a população a favor da nossa causa, posto que o ato foi repudiado por todos. Ao que parece, o governador achou a mesma coisa, porque sancionou rapidamente o PL 2474 na sexta-feira passada, véspera de final de semana, para gerar o mínimo de polêmica e discussão. Outra covardia, nova apunhala pelas costas.
Com a lei sancionada, há pouco o que fazer. Somente uma mobilização maciça dos professores fluminenses poderia pressionar o governo, mas isso não acontecerá por três motivos:
1. Grande parte dos professores concursados ainda está em estágio probatório, o que dá aos profissionais a falsa idéia de que não podem entrar em estado de greve. Servidor em estágio probatório pode fazer greve sem nenhum risco de exoneração, porque tem os mesmos direitos do servidor efetivado. Como sempre, a falta de informação é uma das maiores armas do governo contra a classe.
2. Muitos professores fazem GLP, o que os impede de fazer greve. Para quem não sabe, o governo maldosamente cancela as horas extras dos professores grevistas, o que é absurdo, já que uma coisa nada tem a ver com a outra. Como o professor precisa do dinheiro da GLP para sobreviver, já que é impossível manter-se com nosso ridículo salário, o governo tem mais uma arma para impedir o servidor de exercer o direito constitucional da greve.
3. Os diretores de escolas, que há anos não são eleitos por processo democrático, mas por indicação política, em sua maioria não apóiam ou mesmo coagem os grevistas, ameaçando-os com o temido código 61. Esse código, que nada mais é do que o reconhecimento de que o professor fez greve em tal dia, não traz nenhum prejuízo além das implicações naturais do estado de greve: desconto do dia parado ou reposição daquele dia de aula.
Esta é a tabela final da incorporação do Nova Escola, até 2015 (alguém ainda consegue falar em incorporação até 2015 sem dar uma risada?):

CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIAR

Neste momento não tenho esperança de que haverá qualquer avanço nas negociações com o governo. Eles nos têm no cabresto das GLPs, e isso não mudará em curto prazo. Resta, então, duas saídas: mandar o Sérgio Cabral e toda a Alerj tomarem naquele fétido lugar onde o sol não bate e começar do zero, fazer uma nova faculdade e abandonar de vez o magistério, essa carreira tão bonita e tão desprezada nos dias de hoje. Ou... insistir. Acreditar que cada professor que se mantém no magistério a despeito de toda essa adversidade é, na verdade, um herói, alguém que sabe da sua importância, da sua indispensabilidade para um mundo melhor e mais justo.
Eu fico com a segunda opção, mão sei por quanto tempo, por quantas humilhações mais, mas fico, enquanto durar o amor. Porque só o amor explica a arte de ser professor e ainda ser capaz de lançar ao aluno um sorriso de esperança.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A cachaça, o chocolate e o escritor.

Não vou reclamar mais uma vez da quantidade de trabalho burocrático acumulado, já que está muito claro, especialmente para quem me conhece, que o mês de julho é brutal para os professores. Uma vez que não é possível fugir desse trabalho doméstico, tornemo-lo mais agradável.
Hoje o dia já tinha sido estressante, com um problema nas cópias das minhas provas do Marechal Alcides, que ficaram prontas em cima da hora para aplicação – nesse meio tempo tive de aturar dezenas de alunos impacientes-e-loucos-pelo-meu-sangue que não paravam de perguntar: “- Fessô, vai tê prova?!”, “- Já tá pronto, fessô?”, “Deixa a prova prá ‘manhã!”. Oh my fucking God, foi necessária muita paciência.

Em casa, hora de organizar as notas do Mochón, já que o COC é amanhã. Corrigi algumas provas de recuperação (Céus, acabo de lembrar que NÃO passei as notas de recuperação para a tabela final... ah, foda-se, agora que comecei não vou parar de escrever, quando terminar aqui passo as notas a limpo) e organizei toda a tabela com as notas do 1º e 2º bimestres. Já ia passar para o serviço da outra escola quando percebi que me encontrava naquele estado crítico de estresse que te leva a cometer erros em tudo o que está fazendo.
Reclinei o corpo na cadeira e cruzei os braços, a coluna rígida como um pau, a cabeça levemente inclinada para baixo e os olhos levantados fixos no monitor, mas sem ver nada. Duas da manhã e eu fazendo trabalho da escola. Virei a cabeça pouca coisa para a direita, olhei de esguelha a garrafa de Nega Fulô, presente do mestre Zé Manuel no meu aniversário. Levantei-me sem nem desligar o monitor, peguei a garrafa, um copinho daqueles apropriados para cana e fui para o sofá.
Estava um frio cortante, até a cachorrinha Ricota estava espirrando. Tomei a primeira dose da cachaça com serenidade, uma cara séria, como se aquilo fizesse parte de um ritual para exorcizar o estresse, o que efetivamente era. Quem toma cachaça, especialmente quem aprecia cachaça, sabe a delícia que é sentir a bebida queimando os lábios, reagindo em cada papila gustativa, descendo num gole único, mas macio, terminando com um estalar da língua. Àquela dose seguiram-se outras duas, depois das quais eu sentira a leveza e o calor tão necessários nessa madrugada gelada.
Logo me lembrei de que eu tinha guardado de véspera meia barra de chocolate Garoto com castanhas de caju. O que mais eu poderia querer depois de três doses de Nega Fulô? Chocolate é perfeito para quem acabou de beber! Peguei a barra, voltei ao sofá e sintonizei a TV no Discovery Channel, único canal onde eu tinha certeza de que não estaria passando nenhuma desgraça. Saboreei o chocolate num deleite duradouro, a mente absolutamente desligada, somente os selvagens nervos do paladar ativados, sentindo na língua atiçada pela cachaça todos os sabores do leite e da castanha presentes na barra.
Se for professor, acredite, cachaça e chocolate fazem milagres na hora de lançar notas, deveriam ser distribuídos junto com nossos notebooks. Seguramente melhorariam o desempenho dos profissionais da educação, os alunos perceberiam nossa motivação e estudariam mais, isso diminuiria a taxa de violência e desemprego, contribuindo para um país melhor e mais justo.
Enquanto nada disso acontece, a Nega Fulô e a barra de chocolate com castanha de caju me tiraram da rotina estúpida e repetitiva de corrigir provas na madrugada e me deram a inspiração para escrever esse post, metamorfoseando o homem-máquina no escritor que redigiu essas linhas, levando-me a esta conclusão tão elementar e ao mesmo tempo tão inusitada: despertam o melhor nos professores de Português, a cachaça e o chocolate.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Quem tem medo de Andy Warhol?

Os senhores eu não sei, mas às vezes tenho vontade de varar um prato na minha televisão. E digo prato porque tenho o péssimo hábito de me alimentar diante do aparelho. Desculpe pela pergunta retórica, mas alguém ainda aguenta ouvir em todos os programas, em todos os canais, em quase todos os horários, notícias sobre Michael Jackson?
Não serei leviano, é sabido que a massa adora fartar-se à exaustão da notícia da moda, banqueteando-se de informações redundantes que começam no Fantástico, passam pelo Domingo Legal e pelo Super Pop e terminam em algum desses programas obscuros que passam na madrugada, como um tal de Show Mix (você já tinha ouvido falar? Nem eu, passa nas madrugadas de domingo para segunda, na Band, é péssimo). Não obstante esse fato, esse bombardeio desmesurado de Michael Jackson foi demais até para esse público: uma avalanche de filmes, especiais, biografias, clipes repetidos até exaurir a paciência do mais ávido telespectador.
Acontece que superestimaram o interesse do público pelo passamento do artista. O conceito do pop nunca esteve tão difundido e tão enraizado entre a massa: os quinze minutos de fama já parecem tempo demais. É irônico: a mesma indústria que despeja sobre nós a cultura pop, que prega justamente a efemeridade da obra de arte e a rápida permuta de toda uma estrutura de valores por outra, agora amarga o desinteresse desse público feroz, faminto por novos fatos ou factóides. “- Michael Jackson eu já sei que morreu, quero saber é se ele era alienígena, se tinha dois pênis ou se tinha chantilly correndo nas veias”. O fato é que o sujeito morreu e, como não há muito a acrescentar, surge diariamente todo tipo de atrocidade disfarçada de notícia nova, coisas tão grotescas que constrangem quem ouve, que vão desde sombras fantasmagóricas vagando pela casa do artista até o rosto do próprio aparecendo no fundo de uma assadeira.
Pense bem, quantas pessoas em sua roda de amigos puxou o assunto “Michael Jackson” neste fim de semana? Tente lembrar. Meus alunos, termômetro confiabilíssimo do pensamento coletivo, não tocaram no assunto uma única vez essa semana. Não acredite quando os programas televisivos afirmam que ainda há uma febre, uma comoção nacional por Michael Jackson. Olhe à sua volta: estão todos preocupados com as contas do final do mês, com as gorduras localizadas, com a prova de Português, com a fidelidade do namorado, com a prestação do carro. Acredito vigorosamente que todos estão cagando para Michael Jackson, porque têm coisas muito mais importantes para ocupar o pensamento e as conversas.
Nada mais pop do que ter o enterro mais famoso do mundo por quinze minutos, e só. Onde quer que esteja, Andy Warhol deve estar se gabando.

sábado, 4 de julho de 2009

Como não ser um estorvo.

Não gosto desses manuais de boas maneiras. A maioria deles possui regras tão estúpidas que duvido que quem as escreveu realmente as leve a sério. Por exemplo, para um jantar com 100 convidados deve-se usar uma mesa de 12 metros, nem mais, nem menos (fonte: “Manual de boas maneiras e etiqueta”, por Maria Cândida Gonzaga). Eu fico imaginando o filho da puta (perdão, não encontrei um sinônimo erudito equivalente no manual de boas maneiras) capaz de observar: “- Que mau gosto... cem convidados e essa mesinha de onze metros”.
Prefiro o bom senso, coisa que todos certamente conhecem – mesmo que superficialmente – mas que muitos fazem questão de não praticar. O bom senso anda de mãos dadas com o senso comum, que consiste na percepção de onde terminam seus direitos e começam os do outro.
Hoje (sexta, 03) eu dormi pouco e acordei cedo. Dei uma aula particular para a Fabiana, que fará uma prova da Aeronáutica nesse domingo (esqueci o nome do cargo) e tentei dormir mais um pouco à tarde, sem sucesso. Agora à noite, morto de cansaço, fui avaliar o trabalho de literatura dos alunos do Marechal Alcides que, graças ao bom Deus, estavam a contento. Montei na bicicleta e corri para casa, na cabeça um só pensamento: ficar de cueca no meu sofá vendo Dona Beija. Mas no sofá, que só deveria ter minha linda esposa de camisola, havia uma visita. Olhei para o relógio: 21:30h. Quem diabos visita alguém a essa hora? E não foi só: a criatura trouxe consigo uma criança de 9 anos, um priminho da Danielle, no auge de sua hiperatividade. Ok, pensei, devem ter chegado cedo, já vão embora. Foram às 23:30h.
Eu me questiono se esse tipo de pessoa que visita os outros em qualquer horário, e ainda por cima sem avisar, tem consciência do desconforto que causa. Será que realmente sabe que incomoda, mas não liga? “- Xô vê, nove e trinta da noite. Vô lá na Dani, se incomodá, é só um pouquinho, quase não vou lá ‘mermo’...”. O pior é que vem para não dizer nada, ou seja, aluga seu sofá por horas a fio e você ainda é obrigado a puxar conversa. Como vai fulano? E ciclano? Ah, a filha da Beltrana casou, mas separou já, uma pena...
A inversão da situação é a parte mais esdrúxula da história: se o dono da casa (vítima) insinuar que está na hora da pessoa ir embora, passará por mal educado. “- Víxi! Fui na casa de Danielle e aquele marido grosso dela disse que estava com sono, pra-ti-ca-men-te me mandou embora!”. Evitei gerar essa polêmica, eu estava cansado até para isso, e fiquei zanzando pela casa ainda uniformizado aguardando a visita se cansar para que eu finalmente pudesse ficar de cueca e ver o Jornal da Globo. Sim, o Jornal da Globo, já que perdi o penúltimo capítulo da novela porque a mulher não calava a boca nem por um segundo, e a pobre da Danielle (vítima) tentava interagir naquela conversa pouco interessante para não passar por mal educada. “- Víxi, fui na casa de Danielle e ela pra-ti-ca-men-te não me deu atenção”.
Evitamos também fazer comentários muito ríspidos sobre o menino eletrizado, que corria pela casa com minha sobrinha em trajetória irregular, passando bem perto do computador, do notebook, das minhas caixas de som surround e de algumas miudezas caras. Imagine se eu falasse do menino. “- Víxi, fui na casa de Danielle e aquele marido grosso dela ficou cheio de merda com as coisas dele, nem deixou a ‘quiança’ se divertir”.
Eu sonho com o dia em que algum altruísta investirá numa campanha publicitária pesada sobre as bases do bom senso, que passará no intervalo do Balanço Geral e da novela das oito; que virá impressa nas sacolas dos Supermercados Guanabara e nos rótulos das garrafas de Itaipava. Para o conteúdo da campanha vão minhas sugestões:

  1. Nunca visite alguém sem avisar com antecedência, de preferência no dia anterior;
  2. Se a pessoa insinuar que não está bem para lhe receber, não fique bravo nem fale mal dela. O direito de estar sozinho, ou apenas com quem se deseja, é essencial para preservar nossa beleza e saúde;
  3. Não leve consigo “visitas surpresa”, sobretudo pessoas que o visitado não conhece e crianças pequenas;
  4. Não comunique que está levando alguém consigo: pergunte se pode ou não levar a pessoa. E nada de perguntas retóricas do tipo: “- Estou levando a namorada do primo da minha vizinha, tudo bem? Ela é tão legal, você vai adorar ela, tá?”;
  5. Evite visitar alguém na hora do almoço ou do jantar, mesmo comunicando. Nos dias corridos de hoje é pouco provável que a pessoa vá dispor de mais um lugar na mesa sem que isso lhe cause algum transtorno;
  6. Se você vai passar o dia na casa da pessoa, deixe isso MUITO CLARO com antecedência. Caso contrário, trate de ir embora num horário adequado, não fique esperando a pessoa dar “pistas” como olhar o relógio e bocejar. Se chegou a esse ponto, você JÁ se tornou inconveniente;
  7. As coisas estão difíceis para todo mundo, ninguém é obrigado a ter coisas em casa para lhe oferecer. Portanto, se vai passar muito tempo na casa da pessoa, trate de levar algo para ajudar na “bóia”.

É claro que você pode discordar de tudo isso, achar um exagero, uma chatice. Mas, se não for pedir muito, dê uma revisada nos itens acima antes de pensar em nos fazer uma visita surpresa, porque em dado momento, por mais que isto vá contra nossa natureza, nós também podemos deixar de lado o bom senso.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Provas e mais provas...

Esse final de semana prolongado (11 a 14) foi tão letárgico que deu dó. Depois de duas semanas se recuperando do passamento do Saci, esses quatro dias foram mesmo dedicados ao descanso. Bem, seriam dedicados ao descanso se no sábado não tivéssemos nos lembrado de elaborar nossas provas para entregar na segunda...

Cheguei a pensar num post sobre o dia dos namorados, mas o ânimo foi ralo abaixo quando nos lembramos das benditas provas, portanto esse post vai ficar para semana que vem.

Que fique registrado para aqueles que acham que professor trabalha pouco (pasmem, há quem ache) que o trabalho burocrático realizado em nossas casas muitas vezes é mais longo e penoso que o dia-a-dia em sala de aula. Elaborar provas não é brincadeira: um vacilo nesse quesito e pode-se cometer uma injustiça sem remédio. São horas de pesquisa nos conteúdos dados, consulta a livros, à Internet, além de mais tempo digitando e formatando para que a prova fique com um bom aspecto.

Poderíamos até pensar, “tudo bem, a gente descansa no próximo fim de semana”. Poderíamos. Sábado que vem haverá o tal “sábado letivo”, invenção do nosso querido Governo do Estado para nos fazer trabalhar um pouco mais.

OBS: Nossa, esse negócio de blog é espantoso! Mesmo que ninguém queira ouvir minhas queixas (compreensível: queixa de professor é sempre recorrente e tediosa), grito-as num post, e o grito fica lá, esperando um clique para libertar-se na cara de um internauta incauto. Sei que é uma indelicadeza, e para compensar um possível aluno leitor eis duas tirinhas que incluí, nesse último fim de semana, nas minhas provas do segundo bimestre:

Estude-as e você provavelmente garantirá dois pontos. É o mínimo que posso fazer por quem ainda agüenta ouvir protesto de professor.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Manifesto de apoio ao porco

Antes de tudo, é essencial registrar que estamos vivendo uma hipocondríaca moda de “gripe suína” (assim como já vivemos a da “gripe aviária”, da “febre aftosa”, entre outras). Há pouco tempo rebatizaram a tal gripe do porco como “gripe A”, numa tentativa de dissociar a doença do consumo de carne suína. Tarde demais. Nos supermercados as pessoas estão passando longe dos balcões de salgados, temendo que os pedaços de bacon criem garras e voem em suas jugulares.

Estupidez à parte, tratemos do que importa: por que tanto pavor da tal gripe suína se basta sair à rua para verificar que as pessoas não têm cuidado com a higiene, expondo-se dessa forma a tantas outras moléstias potencialmente perigosas, como a meningite, a tuberculose e a própria gripe humana?
Estive em Bangu, sábado passado, para trocar umas roupas que não me serviram e comprar algumas coisas para o dia das mães. A primeira loja que visitamos – minha esposa e eu – foi a Grippon, localizada no centro do bairro. Lá, Danielle comprou algumas bijuterias para presentear minha mãe. Entreguei à operadora do caixa uma nota de R$ 50,00 para pagar as compras e nesse momento a moça, que não aparentava estar muito satisfeita com a sua vida, levou a palma da mão até as narinas e deslizou o antebraço para cima como se uma roldana em suas ventas auxiliasse o movimento. Parou apenas quando o nariz quase chegava à parte interna da junta, deixando um rastro de líquido transparente e brilhante que se iniciara em seu pulso. Limpou a nojeira na roupa e deu o troco nas lindas e asseadas mãos de minha esposa. O sistema imunológico dela daria um soco na cara da atendente se pudesse.
Mais à frente, passando pelo calçadão e indo em direção às escadas rolantes, um sujeito que parecia estar fazendo a segurança da peixaria em frente enfiou uns dois centímetros do seu indicador direito no ouvido e iniciou um frenético movimento circular no eixo do dedo como se quisesse raspar o tímpano com a unha. Ele ria e conversava com os outros enquanto fazia isso. Ao chegarmos à escada rolante, nem Danielle nem eu tivemos coragem de segurar nos corrimões. Sabe-se lá se o sujeito da peixaria ou a operadora de caixa da Grippon passaram por ali.
Finalmente, quando comprávamos alguns ingredientes para o estrogonofe do dia seguinte, no Supermercado Guanabara do calçadão de Bangu, não pude escapar ao meu destino. Uma mulher gorda, mulata, vestida com roupas baratas de péssimo caimento passou à minha direita caminhando mais rápido do que eu. Quando ela tossiu aquela tosse barulhenta e úmida lembro-me de que seus dois braços continuaram fazendo os movimentos alternados típicos de quem caminha, já que a criatura não fizera questão de tapar a boca com a mão. Recebi aquela chuva asquerosa no ombro e no pescoço, enquanto a via se afastar desengonçada e distraída.
O espaço aqui seria pouco para manifestar minha repulsa e indignação. Não me espantaria se, num futuro próximo, para evitar a gripe humana, déssemos com porcos usando máscaras cirúrgicas.