quarta-feira, 29 de julho de 2009

Artigos de revista, peixes-predador e endocrinologistas

Depois de alguns dias envolvido com as matérias da Revista CPT, estamos de volta a nossa programação normal: os artigos já estão prontos e entregues. Nesse meio tempo, só redigi dois meios-posts para o blog, já que eu não consigo escrever mais de uma coisa ao mesmo tempo.
Um detalhe interessante que eu gostaria de registrar é que foi menos difícil do que eu imaginava escrever os tais artigos, já que tenho praticado bastante aqui no blog. É interessante, eu vivo repetindo aos meus alunos que “escreve bem quem escreve sempre”, mas até iniciar este blog, há pouco mais de dois meses, eu mesmo nunca tivera o hábito de escrever regularmente, e agora sinto-me até meio frustrado quando passo mais de uma semana sem postar nada. Se esse negócio de escrever virar um vício, eu estarei, com o perdão da palavra, fodido, já que terei de somar esse aos vícios em computador, jogos e filmes.
Enfim, por questões éticas, só vou reproduzir minhas matérias da Revista CPT aqui depois da publicação, que deve ocorrer na segunda quinzena de agosto. Na ocasião, vou disponibilizar também o filme Gran Torino sobre o qual escrevi uma crítica que também será postada.
E já que neste post estou apenas registrando os acontecimentos, vão duas entradas para o meu diário público:
1 - Aprendi que nenhum peixe deve ser assado por mais de quinze minutos, ponto. Na segunda-feira assei um peixe enorme comprado de véspera, julgando pelo tamanho, decidi que ele deveria ficar no forno por uns trinta minutos: triste engano! O bicho ficou desmanchando e a cara dele ficou parecida com a do predador (vide montagem com foto do próprio peixe).
2 – Hoje Dani e eu fomos ao Centro para ver um endocrinologista a fim de que ela fizesse alguns exames e montasse um programa alimentar. Depois da consulta ficou claro que há um abismo separando a competência de um simples nutricionista e do médico capacitado: antes de elaborar qualquer dieta milagrosa, pediu uma bateria de exames detalhados para não comprometer a saúde da paciente. O último nutricionista que a Dani consultou passou uma lista de substituições padrão, na qual constavam ovos e nuggets, venenos para quem está com colesterol alto (na época era o caso da Dani).
Registrados esses eventos, dar-me-ei um descanso de uns dois dias e terminarei a outra metade daqueles meios-posts pendentes.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Sai o professor, entra o redator.

Nesta semana estou preparando meu primeiro artigo para a revista CPT, por isso o blog vai ficar de molho até a próxima segunda-feita, a não ser que nesses próximos dias algo realmente interessante arranque-me do meu trabalho para a revista. Serão dois artigos: um sobre a importância dos filmes clássicos e sua influência no cinema contemporâneo e uma resenha sobre “Gran Torino”, novo filme de Clint Eastwood e próximo a ser disponibilizado aqui no Três por Cento.
Quanto a novidades relevantes, somente a bem-vinda chegada do recesso escolar (o que na verdade não é novidade nenhuma), que vem enfim aliviar o estresse decorrente desse último bimestre. Comemoramos o início desses quinze dias de alforria com churrasco de filé mignon ao alho, cerveja gelada e outras beberagens mais encorpadas. Ah, e a gloriosa linguiça de frango, é claro!

Ambos os artigos serão publicados aqui no blog tão logo a revista fique pronta.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A cachaça, o chocolate e o escritor.

Não vou reclamar mais uma vez da quantidade de trabalho burocrático acumulado, já que está muito claro, especialmente para quem me conhece, que o mês de julho é brutal para os professores. Uma vez que não é possível fugir desse trabalho doméstico, tornemo-lo mais agradável.
Hoje o dia já tinha sido estressante, com um problema nas cópias das minhas provas do Marechal Alcides, que ficaram prontas em cima da hora para aplicação – nesse meio tempo tive de aturar dezenas de alunos impacientes-e-loucos-pelo-meu-sangue que não paravam de perguntar: “- Fessô, vai tê prova?!”, “- Já tá pronto, fessô?”, “Deixa a prova prá ‘manhã!”. Oh my fucking God, foi necessária muita paciência.

Em casa, hora de organizar as notas do Mochón, já que o COC é amanhã. Corrigi algumas provas de recuperação (Céus, acabo de lembrar que NÃO passei as notas de recuperação para a tabela final... ah, foda-se, agora que comecei não vou parar de escrever, quando terminar aqui passo as notas a limpo) e organizei toda a tabela com as notas do 1º e 2º bimestres. Já ia passar para o serviço da outra escola quando percebi que me encontrava naquele estado crítico de estresse que te leva a cometer erros em tudo o que está fazendo.
Reclinei o corpo na cadeira e cruzei os braços, a coluna rígida como um pau, a cabeça levemente inclinada para baixo e os olhos levantados fixos no monitor, mas sem ver nada. Duas da manhã e eu fazendo trabalho da escola. Virei a cabeça pouca coisa para a direita, olhei de esguelha a garrafa de Nega Fulô, presente do mestre Zé Manuel no meu aniversário. Levantei-me sem nem desligar o monitor, peguei a garrafa, um copinho daqueles apropriados para cana e fui para o sofá.
Estava um frio cortante, até a cachorrinha Ricota estava espirrando. Tomei a primeira dose da cachaça com serenidade, uma cara séria, como se aquilo fizesse parte de um ritual para exorcizar o estresse, o que efetivamente era. Quem toma cachaça, especialmente quem aprecia cachaça, sabe a delícia que é sentir a bebida queimando os lábios, reagindo em cada papila gustativa, descendo num gole único, mas macio, terminando com um estalar da língua. Àquela dose seguiram-se outras duas, depois das quais eu sentira a leveza e o calor tão necessários nessa madrugada gelada.
Logo me lembrei de que eu tinha guardado de véspera meia barra de chocolate Garoto com castanhas de caju. O que mais eu poderia querer depois de três doses de Nega Fulô? Chocolate é perfeito para quem acabou de beber! Peguei a barra, voltei ao sofá e sintonizei a TV no Discovery Channel, único canal onde eu tinha certeza de que não estaria passando nenhuma desgraça. Saboreei o chocolate num deleite duradouro, a mente absolutamente desligada, somente os selvagens nervos do paladar ativados, sentindo na língua atiçada pela cachaça todos os sabores do leite e da castanha presentes na barra.
Se for professor, acredite, cachaça e chocolate fazem milagres na hora de lançar notas, deveriam ser distribuídos junto com nossos notebooks. Seguramente melhorariam o desempenho dos profissionais da educação, os alunos perceberiam nossa motivação e estudariam mais, isso diminuiria a taxa de violência e desemprego, contribuindo para um país melhor e mais justo.
Enquanto nada disso acontece, a Nega Fulô e a barra de chocolate com castanha de caju me tiraram da rotina estúpida e repetitiva de corrigir provas na madrugada e me deram a inspiração para escrever esse post, metamorfoseando o homem-máquina no escritor que redigiu essas linhas, levando-me a esta conclusão tão elementar e ao mesmo tempo tão inusitada: despertam o melhor nos professores de Português, a cachaça e o chocolate.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Quem tem medo de Andy Warhol?

Os senhores eu não sei, mas às vezes tenho vontade de varar um prato na minha televisão. E digo prato porque tenho o péssimo hábito de me alimentar diante do aparelho. Desculpe pela pergunta retórica, mas alguém ainda aguenta ouvir em todos os programas, em todos os canais, em quase todos os horários, notícias sobre Michael Jackson?
Não serei leviano, é sabido que a massa adora fartar-se à exaustão da notícia da moda, banqueteando-se de informações redundantes que começam no Fantástico, passam pelo Domingo Legal e pelo Super Pop e terminam em algum desses programas obscuros que passam na madrugada, como um tal de Show Mix (você já tinha ouvido falar? Nem eu, passa nas madrugadas de domingo para segunda, na Band, é péssimo). Não obstante esse fato, esse bombardeio desmesurado de Michael Jackson foi demais até para esse público: uma avalanche de filmes, especiais, biografias, clipes repetidos até exaurir a paciência do mais ávido telespectador.
Acontece que superestimaram o interesse do público pelo passamento do artista. O conceito do pop nunca esteve tão difundido e tão enraizado entre a massa: os quinze minutos de fama já parecem tempo demais. É irônico: a mesma indústria que despeja sobre nós a cultura pop, que prega justamente a efemeridade da obra de arte e a rápida permuta de toda uma estrutura de valores por outra, agora amarga o desinteresse desse público feroz, faminto por novos fatos ou factóides. “- Michael Jackson eu já sei que morreu, quero saber é se ele era alienígena, se tinha dois pênis ou se tinha chantilly correndo nas veias”. O fato é que o sujeito morreu e, como não há muito a acrescentar, surge diariamente todo tipo de atrocidade disfarçada de notícia nova, coisas tão grotescas que constrangem quem ouve, que vão desde sombras fantasmagóricas vagando pela casa do artista até o rosto do próprio aparecendo no fundo de uma assadeira.
Pense bem, quantas pessoas em sua roda de amigos puxou o assunto “Michael Jackson” neste fim de semana? Tente lembrar. Meus alunos, termômetro confiabilíssimo do pensamento coletivo, não tocaram no assunto uma única vez essa semana. Não acredite quando os programas televisivos afirmam que ainda há uma febre, uma comoção nacional por Michael Jackson. Olhe à sua volta: estão todos preocupados com as contas do final do mês, com as gorduras localizadas, com a prova de Português, com a fidelidade do namorado, com a prestação do carro. Acredito vigorosamente que todos estão cagando para Michael Jackson, porque têm coisas muito mais importantes para ocupar o pensamento e as conversas.
Nada mais pop do que ter o enterro mais famoso do mundo por quinze minutos, e só. Onde quer que esteja, Andy Warhol deve estar se gabando.

sábado, 4 de julho de 2009

Como não ser um estorvo.

Não gosto desses manuais de boas maneiras. A maioria deles possui regras tão estúpidas que duvido que quem as escreveu realmente as leve a sério. Por exemplo, para um jantar com 100 convidados deve-se usar uma mesa de 12 metros, nem mais, nem menos (fonte: “Manual de boas maneiras e etiqueta”, por Maria Cândida Gonzaga). Eu fico imaginando o filho da puta (perdão, não encontrei um sinônimo erudito equivalente no manual de boas maneiras) capaz de observar: “- Que mau gosto... cem convidados e essa mesinha de onze metros”.
Prefiro o bom senso, coisa que todos certamente conhecem – mesmo que superficialmente – mas que muitos fazem questão de não praticar. O bom senso anda de mãos dadas com o senso comum, que consiste na percepção de onde terminam seus direitos e começam os do outro.
Hoje (sexta, 03) eu dormi pouco e acordei cedo. Dei uma aula particular para a Fabiana, que fará uma prova da Aeronáutica nesse domingo (esqueci o nome do cargo) e tentei dormir mais um pouco à tarde, sem sucesso. Agora à noite, morto de cansaço, fui avaliar o trabalho de literatura dos alunos do Marechal Alcides que, graças ao bom Deus, estavam a contento. Montei na bicicleta e corri para casa, na cabeça um só pensamento: ficar de cueca no meu sofá vendo Dona Beija. Mas no sofá, que só deveria ter minha linda esposa de camisola, havia uma visita. Olhei para o relógio: 21:30h. Quem diabos visita alguém a essa hora? E não foi só: a criatura trouxe consigo uma criança de 9 anos, um priminho da Danielle, no auge de sua hiperatividade. Ok, pensei, devem ter chegado cedo, já vão embora. Foram às 23:30h.
Eu me questiono se esse tipo de pessoa que visita os outros em qualquer horário, e ainda por cima sem avisar, tem consciência do desconforto que causa. Será que realmente sabe que incomoda, mas não liga? “- Xô vê, nove e trinta da noite. Vô lá na Dani, se incomodá, é só um pouquinho, quase não vou lá ‘mermo’...”. O pior é que vem para não dizer nada, ou seja, aluga seu sofá por horas a fio e você ainda é obrigado a puxar conversa. Como vai fulano? E ciclano? Ah, a filha da Beltrana casou, mas separou já, uma pena...
A inversão da situação é a parte mais esdrúxula da história: se o dono da casa (vítima) insinuar que está na hora da pessoa ir embora, passará por mal educado. “- Víxi! Fui na casa de Danielle e aquele marido grosso dela disse que estava com sono, pra-ti-ca-men-te me mandou embora!”. Evitei gerar essa polêmica, eu estava cansado até para isso, e fiquei zanzando pela casa ainda uniformizado aguardando a visita se cansar para que eu finalmente pudesse ficar de cueca e ver o Jornal da Globo. Sim, o Jornal da Globo, já que perdi o penúltimo capítulo da novela porque a mulher não calava a boca nem por um segundo, e a pobre da Danielle (vítima) tentava interagir naquela conversa pouco interessante para não passar por mal educada. “- Víxi, fui na casa de Danielle e ela pra-ti-ca-men-te não me deu atenção”.
Evitamos também fazer comentários muito ríspidos sobre o menino eletrizado, que corria pela casa com minha sobrinha em trajetória irregular, passando bem perto do computador, do notebook, das minhas caixas de som surround e de algumas miudezas caras. Imagine se eu falasse do menino. “- Víxi, fui na casa de Danielle e aquele marido grosso dela ficou cheio de merda com as coisas dele, nem deixou a ‘quiança’ se divertir”.
Eu sonho com o dia em que algum altruísta investirá numa campanha publicitária pesada sobre as bases do bom senso, que passará no intervalo do Balanço Geral e da novela das oito; que virá impressa nas sacolas dos Supermercados Guanabara e nos rótulos das garrafas de Itaipava. Para o conteúdo da campanha vão minhas sugestões:

  1. Nunca visite alguém sem avisar com antecedência, de preferência no dia anterior;
  2. Se a pessoa insinuar que não está bem para lhe receber, não fique bravo nem fale mal dela. O direito de estar sozinho, ou apenas com quem se deseja, é essencial para preservar nossa beleza e saúde;
  3. Não leve consigo “visitas surpresa”, sobretudo pessoas que o visitado não conhece e crianças pequenas;
  4. Não comunique que está levando alguém consigo: pergunte se pode ou não levar a pessoa. E nada de perguntas retóricas do tipo: “- Estou levando a namorada do primo da minha vizinha, tudo bem? Ela é tão legal, você vai adorar ela, tá?”;
  5. Evite visitar alguém na hora do almoço ou do jantar, mesmo comunicando. Nos dias corridos de hoje é pouco provável que a pessoa vá dispor de mais um lugar na mesa sem que isso lhe cause algum transtorno;
  6. Se você vai passar o dia na casa da pessoa, deixe isso MUITO CLARO com antecedência. Caso contrário, trate de ir embora num horário adequado, não fique esperando a pessoa dar “pistas” como olhar o relógio e bocejar. Se chegou a esse ponto, você JÁ se tornou inconveniente;
  7. As coisas estão difíceis para todo mundo, ninguém é obrigado a ter coisas em casa para lhe oferecer. Portanto, se vai passar muito tempo na casa da pessoa, trate de levar algo para ajudar na “bóia”.

É claro que você pode discordar de tudo isso, achar um exagero, uma chatice. Mas, se não for pedir muito, dê uma revisada nos itens acima antes de pensar em nos fazer uma visita surpresa, porque em dado momento, por mais que isto vá contra nossa natureza, nós também podemos deixar de lado o bom senso.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Retomando 2 semanas: meu primeiro post-diário.

Qual o resultado das duas últimas semanas do semestre escolar? Duas semanas sem nenhum post, é claro! Pilhas de material burocrático sobre a mesa, provas para elaborar / corrigir e preparação de revisões diversas tomando até o meu último minuto livre. Confesso que fiquei meio frustrado de ficar tanto tempo sem postar, tinha a ilusão de que sempre teria pelo menos algumas horas semanais para dedicar exclusivamente ao blog, mas a realidade não é essa e estou tentando me conformar.
E veja só, esse desabafo não se transformou em um post? Como eu disse lá embaixo, no meu primeiro registro, se isso não se transformar num blog popular, tornar-se-á então um excelente diário! E o que registro agora é isso: eu e Dani estamos há duas semanas, como diria o jingle do César Maia, “Sem parar, sem parar”; aconteceram tantas coisas que mereciam posts nesse mês de junho, mas simplesmente não houve tempo hábil de registrá-las:

  • Dia 12 foi um dia interessante, começou muito mal (não fomos para a academia, caiu um toró do cacete, tive de ir a Padre Miguel devolver um DVD no meio da chuva e esqueci meu cartão de crédito no petshop aqui perto de casa acabando com minhas pretensões de fazer um jantar romântico para a Dani), mas acabou muito bem, comigo e Dani fazendo um churrasco caseiro com uma peça de filé Mignon que já estava no meu freezer há séculos e bebendo umas geladinhas enquanto assistíamos a filmes de terror B. Acabou sendo muito legal, tenho algo a dizer sobre esse dia para um post, em breve;
  • Dia 19 eu fui atropelado por uma moto na Figueiredo Camargo – rua do Ponto Chique – e fui parar no UPA. O atropelamento em si não foi grande coisa, mas a reação das pessoas a esse fato é digna de nota e ganhará também um post bem bacana.
  • Dia 22, na minha avaliação da academia, descobri que perdi quase 2 Kg de massa muscular. É a idade chegando (depois dos 30 perde-se 1% de massa magra ao ano). Não chega a ser uma notícia digna de post, mas vale registrar que me deixou PUTO da vida.
  • Dia 26 meus alunos da turma 1003 do Alcides Etchegoyen apresentaram um trabalho classe A sobre obesidade, provando que nem tudo na escola pública está perdido.

  • Dia 28 eu descobri como é difícil instalar calhas de lâmpadas fluorescentes de 40w na cozinha, especialmente quando se enxerga “bem” como eu. Se não fosse o Iuri me ajudando eu não teria conseguido, conto com a ajuda dele para instalar outra calha de 20w no meu escritório semana que vem.
  • Dia 29 comecei minha nova série na academia, com 3 exercícios a mais. Terei de dedicar pelo menos mais 30 minutos por dia para recuperar a massa magra que perdi. Mais uma vez, percebo como é injusto ter de trabalhar tanto fora da escola, tendo de apertar ainda mais meu tempo para cuidar de minha saúde. Depois perguntam por que grande parte dos professores está fora do peso ou com aparência ruim.

E é isso. Com esse meu primeiro tópico-diário espero estar me redimindo das 2 semanas sem postar. Eu me sinto redimido e é o que importa, estou com um sincero alívio no peito. Como sou um sujeito extremamente metódico, dói-me deixar o blog desatualizado mesmo que, no fim das contas, ninguém se dê conta disso.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Provas e mais provas...

Esse final de semana prolongado (11 a 14) foi tão letárgico que deu dó. Depois de duas semanas se recuperando do passamento do Saci, esses quatro dias foram mesmo dedicados ao descanso. Bem, seriam dedicados ao descanso se no sábado não tivéssemos nos lembrado de elaborar nossas provas para entregar na segunda...

Cheguei a pensar num post sobre o dia dos namorados, mas o ânimo foi ralo abaixo quando nos lembramos das benditas provas, portanto esse post vai ficar para semana que vem.

Que fique registrado para aqueles que acham que professor trabalha pouco (pasmem, há quem ache) que o trabalho burocrático realizado em nossas casas muitas vezes é mais longo e penoso que o dia-a-dia em sala de aula. Elaborar provas não é brincadeira: um vacilo nesse quesito e pode-se cometer uma injustiça sem remédio. São horas de pesquisa nos conteúdos dados, consulta a livros, à Internet, além de mais tempo digitando e formatando para que a prova fique com um bom aspecto.

Poderíamos até pensar, “tudo bem, a gente descansa no próximo fim de semana”. Poderíamos. Sábado que vem haverá o tal “sábado letivo”, invenção do nosso querido Governo do Estado para nos fazer trabalhar um pouco mais.

OBS: Nossa, esse negócio de blog é espantoso! Mesmo que ninguém queira ouvir minhas queixas (compreensível: queixa de professor é sempre recorrente e tediosa), grito-as num post, e o grito fica lá, esperando um clique para libertar-se na cara de um internauta incauto. Sei que é uma indelicadeza, e para compensar um possível aluno leitor eis duas tirinhas que incluí, nesse último fim de semana, nas minhas provas do segundo bimestre:

Estude-as e você provavelmente garantirá dois pontos. É o mínimo que posso fazer por quem ainda agüenta ouvir protesto de professor.

domingo, 7 de junho de 2009

Domingo de um coveiro amador

O fato sobre o qual escrevo a seguir ocorreu há duas semanas, no dia 24/05. Esperei esse tempo porque quando se escreve com o coração pesado a escolha das palavras torna-se mais difícil: ora é demasiado melancólica, ora é simplesmente imprecisa. O texto será, inevitavelmente, triste. Lúgubre até. É árduo escrever sobre a morte, não há nada de piegas nisso. Já que estou disposto a escrever prometo que me esmerarei para que o leitor não seja apenas o espectador de um sepultamento, mas que pegue na enxada junto comigo e segure minhas mãos sujas de terra.

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Quando acordei às 7 horas de domingo após ter dormido pouquíssimo já sabia o que tinha de fazer: iria abrir uma cova e enterrar meu cachorro que morrera há menos de 12 horas numa clínica veterinária próxima à casa da também falecida D. Nazaré, avó de Danielle, no Barata. O veterinário comprometeu-se a trazer o bicho lá pela hora do almoço, o que me dava tempo suficiente para adiantar a primeira parte da tarefa.

Tomei o café da manhã costumeiro, banana, cereais e leite, peguei a enxada que deixara pronta de véspera, montei na bicicleta e fui para o nosso terreno na rua Manaus. Danielle dormia e não me ouviu sair.
Decidi cavar nos fundos do terreno, onde sabia que o mato crescia menos e tinha uma vegetação rasteira que era até simpática. Optei pelo lado esquerdo, oposto ao muro da casa vizinha. A única experiência válida que eu tinha sobre como se abrir uma cova foi assistir a dois enterros, dos meus avós, há alguns anos atrás. Lembro-me que o coveiro devia ter uns 50 anos e abriu com certa facilidade um buraco grande o suficiente para descer o esquife. Confortado com essa lembrança lancei o primeiro golpe na terra, esperançoso de que a tarefa afinal não fosse tão penosa, apenas para ter o cabo da enxada quebrado logo nessa primeira investida. Olhei em volta furioso, a ferramenta inútil jogada no chão, buscando uma solução rápida para o problema: alguém tinha de me emprestar uma enxada e logo.
A salvação foi o Braga, o sujeito que construiu minha casa e é incapaz de negar um favor a quem quer que seja. Emprestou-me de bom grado a enxada, dando-me os pêsames pelo passamento do Saci enquanto martelava a peça de metal contra o cabo de madeira, deixando as peças bem firmes.
De volta ao terreno finalmente a cova começou a tomar forma, mas o trabalho foi muitíssimo pior do que eu esperava: cavar um buraco era uma tarefa muito, muito difícil. Mesmo com um porte físico médio – não sou nenhum fracote – descobri que descolar nacos de terra do solo duro era um serviço lento e cansativo, o que acabou concretizando o pior dos meus temores: eu comecei a pensar enquanto cavava.
Impossível não se lembrar dos momentos que passamos com o bichinho desde que o pegamos na rua com a pata machucada, em 2001. Foi indubitavelmente o melhor cachorro que já tive: sempre alegre, carinhoso, sorridente, não havia quem não gostasse dele. A covinha tinha de ser do tamanho certo, não iria colocar o bicho todo dobrado ali dentro. O suor escorria pesado e em grande quantidade pela testa e pelo nariz, colava a camisa nas costas e no peito, mas não importava, ele merecia, ia ter o seu jazigo do tamanho adequado. Doeu-me muito sobrepor a imagem do animal vivo sobre o buraco, para medir o tamanho e a profundidade, senti o peito apertado.
Ele adorava subir nas coisas, tinha horror a ficar no chão, meus amigos o apelidavam de “cat dog” ou “bird dog”, pois só vivia empoleirado em cima das cadeiras e até mesmo da máquina de lavar. Sempre perto, onde quer que estivéssemos, andava atrás de nós pela casa toda. E ainda agora ficaria por perto. O veterinário tinha um amigo que supostamente iria cremá-lo na Rural, mas quem garante que o sujeito não o jogaria na primeira lixeira que encontrasse? Não, ele ficaria aqui no nosso terreno, o mais próximo que consegui da nossa casa, numa sepultura digna da amizade que dividiu conosco por quase 10 anos.
A enxada batia nas pedras, tive de me agachar algumas vezes para arrancar pedregulhos que impediam o progresso do trabalho. Quase pronto, um pouco mais fundo, pensei. A idéia de que a cova ficasse rasa demais me apavorava, lembro-me de que isso me passou pela cabeça enquanto minha avó era enterrada, achei que o buraco estava raso, mas era impossível falar qualquer coisa a respeito. “- Sr. coveiro, o senhor pode fazer a gentileza de cavar mais fundo para que eu tenha a certeza de que os urubus não vão banquetear a minha avozinha?”. Se a velha estivesse viva cairia na gargalhada.
Pronto. Dei uma última olhada e fiquei satisfeito com o resultado, não fosse o tempo que levara para cavar, diria que fora um trabalho perfeito. Lavei o rosto e os braços na biquinha próxima ao portão, devolvendo ao solo o tanto de terra que ficara colado na minha pele. Deixei a enxada recostada no muro próximo à cova, saí e tranquei o portão.
Era domingo, um peixe cairia bem para o almoço, ainda havia tempo de conseguir um exemplar fresco. Fui com a bicicleta até a barraca próxima ao Guanabara e comprei uma corvina de tamanho médio. Voltei para casa e temperei o peixe, aguardando o telefonema do veterinário que não tardou a vir. Quando pus a corvina na geladeira não pude deixar de dissociar desse o ato de se colocar um cadáver num freezer de necrotério. A cabeça estava cheia de idéias tristes e mórbidas.
Marquei com o veterinário próximo ao quartel da ESIE e de lá fomos para o terreno na rua Manaus. Ele me entregou o corpinho dentro de um saco verde, desses usados para se colocar lixo. O rabinho dele apareceu e foi como uma apunhalada no coração. Engoli seco e agradeci o veterinário pelo empenho em tentar salvar meu amigo. Ele retribuiu com um aperto de mão e disse que estávamos quites, eu não lhe devia nada. Estavam de óculos escuros, o veterinário e sua companheira, que não fez questão de sair do carro nem de me dar bom dia. Partiram em direção à Avenida Brasil, para curtir em algum lugar aquele bonito domingo de sol.
Fiquei muito satisfeito ao ver que a cova correspondia ao tamanho do animal. O saco verde-oliva drapejava e eu pus a mão espalmada na lateral do bicho para ter a certeza de que não havia sinal de respiração. Só então me despedi e puxei a terra por cima, trabalho que concluí em menos de 5 minutos. Compactei o solo com a enxada e fiquei alguns instantes observando. Pensei em fazer uma cruz para marcar o local, mas lembrei-me de que o cachorro não era cristão, pelo menos se era nunca tinha me contado, e resolvi circundar com pedras a pequena sepultura, obtendo um razoável resultado estético. Lavei o rosto deixando propositalmente que um pouco de água umedecesse minha boca, peguei a enxada do Braga e dei uma última olhada para trás. Nosso terreno era, agora, um cemitério. Saí, tranquei o portão dando duas voltas na chave e voltei para casa.
Eu e Danielle nos abraçamos muito e choramos. Cuidamos do bicho até o final, proporcionamos-lhe a melhor vida e o melhor enterro que pudemos. Estava na hora do almoço, era hora de assar aquele peixe. Peguei uma assadeira e já ia transferir para ali a corvina quando vi que ainda havia terra sob minhas unhas. Antes de lavar mais uma vez as mãos, olhei para a terra e para o peixe. Então olhei para o lado, para a cadeira de plástico sob a qual o bichinho gostava de dormir e senti mais uma vez o peito apertar. Isso vai demorar a passar, esse aperto. Os olhos mortos do peixe, sem brilho, não refletiam nada. A terra debaixo das unhas correu para o esgoto com a água fria da torneira. Na terra, no peixe e no peito somente a morte e o desalento.

terça-feira, 2 de junho de 2009

O Lutador: um filme para ser lembrado, sempre.

Sou fã de cinema desde moleque, quando frequentava os poeirinhas aqui de Realengo e de Bangu. Lembro que enquanto a turma estava no campo jogando bola, eu estava todo engomado indo ver qualquer coisa que estivesse passando no Cine Realengo, hoje uma igreja evangélica cujo nome não me recordo. Coincidência ou não, até onde sei, daqueles garotos eu fui o único efetivamente bem sucedido. Entendam por bem sucedido trabalhar com aquilo que amo, ter uma esposa maravilhosa e uma casa enorme onde posso continuar vendo meus filmes com o som num volume altíssimo. Sim, o cinema opera milagres.
Desenvolvi um critério bem particular para eleger meus filmes preferidos: um bom filme é aquele que sem querer você acaba sintonizando enquanto passa os canais e não resiste a vê-lo até o final. Um ótimo filme é aquele que quando você sintoniza sem querer você continua passando os canais, porque julga um absurdo ver um ótimo filme já começado. Um filme excelente é aquele que você compra e faz questão de chamar os amigos para ver e discutir. Há ainda uma última categoria: os filmes inesquecíveis. Esses são aqueles que eu vejo um sem número de vezes, vejo pela metade, vejo inteiros, dublados, legendados, com ou sem os amigos. Desses não enjôo nunca, nunca. São obras-primas seletas, que de alguma maneira me tocaram e frequentemente me vêm à lembrança.

“O Lutador” (título original: “The Wrestler”, Estados Unidos, 2008) integrou recentemente essa minha lista especial. Talvez seja o único filme, pelo menos o único que conheço, que trata da realização pessoal de uma perspectiva diferente: o que você faria se dedicasse sua vida toda a um sonho, alcançasse plenamente esse sonho e de súbito tudo fosse arrancado de você, irreversivelmente? Você aceitaria uma vida alternativa, sem brilho, caminhando sobre os cacos do sonho despedaçado, ou arriscaria tudo para resgatar a antiga glória, mesmo que isso acarrete em sua própria destruição?
Randy (Mickey Rourke, arrebatador) dá sua própria resposta com seu “Ram Jam”. Quando assisto a esse filme, e já o assisti inúmeras vezes, é inevitável que eu me faça esses mesmos questionamentos. A vida é uma estrada de mão única, deve ser terrível chegar tão longe e descobrir que há um bloqueio na estrada, que o obrigará a seguir por um desvio de asfalto esburacado e destino incerto. Ver “O Lutador” faz pensar nas decisões que tomamos, no quanto sacrificamos nossa saúde e nossa família por um objetivo qualquer. Daqui a alguns anos esses sacrifícios podem não ter valido a pena e então terá sido tarde demais para qualquer redenção. Por isso, exatamente por isso, é que eu jamais coloco meu trabalho na frente da minha saúde e da minha família, até porque no fim é só isso que nos restará: nossa saúde e nossa família.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Partida de um amigo querido

Não houve um post nessa semana devido à morte do Saci, nosso querido animalzinho, no sábado passado, dia 23. Naturalmente não tive cabeça para sentar ao micro e escrever coisa alguma. Ficamos muito abalados, e só hoje decidi registrar aqui o acontecido.


Ontem o veterinário nos entregou o corpinho, que eu enterrei no nosso terreno da rua Manaus. Sobre esse evento eu escreverei em breve.
Fique registrada também a chegada da Ricota, nossa mistura de pastor alemão com chow-chow que resultou num pastor de língua roxa. Danielle a salvou de um atropelamento em frente à nossa casa, na quarta-feira passada, dia 20. Ela está sendo muito importante nesse período tão difícil para nós.

domingo, 17 de maio de 2009

Domingo sangrento

Sábado é um excelente dia para instalar tomadas elétricas na cozinha. Isso porque ao contrário dos meados da semana pode-se tomar uma cervejinha e ouvir música alta durante o trabalho. Pois bem, estava eu instalando novas tomadas elétricas na cozinha quando o meu Media Player selecionou aleatoriamente dentre 33Gb de MP3 a faixa “Sunday Bloody Sunday” do U2. Levantei a cabeça para ouvir melhor a música, fios na mão esquerda e na direita a chave de fenda de testes. Que letra foda, foi o que pensei.




E é isso mesmo: uma letra foda, engajada, metafórica, inteligente. Achei graça de quando eu era adolescente no início da década de 90 e ouvia essa música sem fazer idéia do que se tratava, já que minhas habilidades na Língua Inglesa ainda eram medíocres. E ainda assim eu adorava a música, achava a melodia poderosa, dava vontade de gritar junto com o Bono: - Tooooniiiiiiiiight!!! We can be as one!
Anos depois, descobri que a música tratava do massacre ocorrido na Irlanda do Norte em 1972 numa manifestação contrária aos abusos e preconceitos que atingiam a população católica. Tropas britânicas entraram em confronto com a multidão, composta em grande parte por mulheres e crianças, matando pelo menos 14 pessoas e ferindo dezenas de outras. Aquele domingo ficou conhecido como o Domingo Sangrento, que dá título à música.
Conectei os fios vermelho e branco e apertei com a chave philips. Esse privilégio de cantar uma música com orgulho envelhece com a minha geração. O que os moços de hoje dirão, daqui a uns 10 anos, das músicas que ouvem? Pouco ou nada. A enxurrada de hip-hop que inunda as rádios não trata de outra coisa que não seja o traseiro de uma musa anônima que rebola numa boate qualquer, ou então supostas insurreições contra o sistema, ainda que nenhum dos cantores saiba explicar direito o que é o sistema contra o qual se insurgem.
Apertei os parafusos do espelho. Um tomada instalada, faltam sete. Enchi meu peito e cantei desafinado junto com os alto-falantes: “Tonight, we can be as one!”. Esta noite, podemos ser como um. Imaginei, num instante onírico, a multidão de manifestantes enfrentando as tropas britânicas e cantando o refrão: - Tonight, we can be as one!
Enchi-me de orgulho. Minha geração, meus amigos, minha esposa, todos cantávamos e dançávamos ao som de idéias, árias de liberdade. Em uma década duvido que os novos adultos se interessem em saber o que cantavam e dançavam, seja por desconhecer o idioma de Shakespeare, seja por pura vergonha.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Manifesto de apoio ao porco

Antes de tudo, é essencial registrar que estamos vivendo uma hipocondríaca moda de “gripe suína” (assim como já vivemos a da “gripe aviária”, da “febre aftosa”, entre outras). Há pouco tempo rebatizaram a tal gripe do porco como “gripe A”, numa tentativa de dissociar a doença do consumo de carne suína. Tarde demais. Nos supermercados as pessoas estão passando longe dos balcões de salgados, temendo que os pedaços de bacon criem garras e voem em suas jugulares.

Estupidez à parte, tratemos do que importa: por que tanto pavor da tal gripe suína se basta sair à rua para verificar que as pessoas não têm cuidado com a higiene, expondo-se dessa forma a tantas outras moléstias potencialmente perigosas, como a meningite, a tuberculose e a própria gripe humana?
Estive em Bangu, sábado passado, para trocar umas roupas que não me serviram e comprar algumas coisas para o dia das mães. A primeira loja que visitamos – minha esposa e eu – foi a Grippon, localizada no centro do bairro. Lá, Danielle comprou algumas bijuterias para presentear minha mãe. Entreguei à operadora do caixa uma nota de R$ 50,00 para pagar as compras e nesse momento a moça, que não aparentava estar muito satisfeita com a sua vida, levou a palma da mão até as narinas e deslizou o antebraço para cima como se uma roldana em suas ventas auxiliasse o movimento. Parou apenas quando o nariz quase chegava à parte interna da junta, deixando um rastro de líquido transparente e brilhante que se iniciara em seu pulso. Limpou a nojeira na roupa e deu o troco nas lindas e asseadas mãos de minha esposa. O sistema imunológico dela daria um soco na cara da atendente se pudesse.
Mais à frente, passando pelo calçadão e indo em direção às escadas rolantes, um sujeito que parecia estar fazendo a segurança da peixaria em frente enfiou uns dois centímetros do seu indicador direito no ouvido e iniciou um frenético movimento circular no eixo do dedo como se quisesse raspar o tímpano com a unha. Ele ria e conversava com os outros enquanto fazia isso. Ao chegarmos à escada rolante, nem Danielle nem eu tivemos coragem de segurar nos corrimões. Sabe-se lá se o sujeito da peixaria ou a operadora de caixa da Grippon passaram por ali.
Finalmente, quando comprávamos alguns ingredientes para o estrogonofe do dia seguinte, no Supermercado Guanabara do calçadão de Bangu, não pude escapar ao meu destino. Uma mulher gorda, mulata, vestida com roupas baratas de péssimo caimento passou à minha direita caminhando mais rápido do que eu. Quando ela tossiu aquela tosse barulhenta e úmida lembro-me de que seus dois braços continuaram fazendo os movimentos alternados típicos de quem caminha, já que a criatura não fizera questão de tapar a boca com a mão. Recebi aquela chuva asquerosa no ombro e no pescoço, enquanto a via se afastar desengonçada e distraída.
O espaço aqui seria pouco para manifestar minha repulsa e indignação. Não me espantaria se, num futuro próximo, para evitar a gripe humana, déssemos com porcos usando máscaras cirúrgicas.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O funeral da arrogância

Eu sempre quis escrever um Blog, mas tinha receio de que seria um total fiasco, que ninguém o leria e que ficaria jogado, perdido no meio das zilhões de páginas inúteis e pouco interessantes que sufocam a rede. Esse risco de ter o orgulho ferido sempre me rendeu certo desânimo.
Para começar a escrever, tive de me despir de toda a presunção, cujo tecido me apertava especialmente na altura do peito e do pescoço. Conformei-me com o fato de que talvez eu mesmo seja o solitário leitor de minhas palavras, e fiz disso a força motriz que impulsionará a escrita: se esse blog será uma espécie de diário, que seja! Nunca fui muito bom em decorar minhas próprias visões das coisas.
E por falar em visão, ela dá nome ao Blog: três por cento. É maios ou menos o quanto enxergo, graças à degeneração causada pela Doença de Stargardt. Nunca fiz drama sobre isso e não começarei hoje: escolhi esse título tão somente porque me pareceu original, e como é difícil ter idéias originais, decidi não desperdiçar essa. Além do mais, enxergar o mundo com baixa visão é algo tão singular que merece ser documentado, e de quebra confere a esse blog um caráter interessante.
Tratarei aqui de quaisquer temas que me despertem a atenção, e não serão poucos: sou um sujeito atento a tudo e a todos. Professor, cinéfilo, nerd assumido, marido e cidadão inconformado, não me aterei a temas específicos, falarei sobre o que der na telha. Na fila das resenhas literárias, o primeiro tema será “Onde os Velhos Não Têm Vez”, que pretendo começar a ler ainda hoje. Bote aí uns 2 meses até sair a resenha, já que leio devagar pacas.

Enfim, se esse blog não receber visitas, estarei resignado. Finalmente tenho uma oportunidade de registrar, em tempo real, impressões datadas de maneira organizada. E aqui vai a primeira: essa vitória que tive sobre minha soberba – o despeito de escrever sem saber se serei lido – soa como libertação. Escrever essas palavras sem a perspectiva de um leitor foi umas das coisas mais arrebatadoras que me aconteceram neste ano.